PRODUÇÃO INDEPENDENTE

julho 2, 2007

Ciclo de abandono

Filed under: abandono,adoptar,perda,psicanálise,traumas — by Primípara @ 12:11 am

Como gato escaldado, quem é abandonado cria, sem que disso tenha consciência, condições para procurar… quem a abandone, e torna-se, por tudo isso, potencialmente abandonante.

(…)

todas as pessoas que maltratam serão, apesar de maltratantes, vítimas inequívocas. Apesar de não ter registo de lesão aos raios-x, um abandono é sempre um mau trato violentíssimo que deixa sequelas; para sempre.

Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina, p. 230

julho 1, 2007

Justificar a maternidade, como ninguém

Filed under: perda,psicanálise,reconstruir-me — by Primípara @ 10:32 pm

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Ainda tanta raiva. Tanta dor. Ainda.

Mas agora compreendo a maternidade, o parto. Até a infertilidade.

A morte do meu pai foi o fim de uma era de poder tirânico. De medo e de culpa. Foi difícil amar tanto uma pessoa que me era tão contrária. Que eu amava tanto, mas que, ao mesmo tempo, tinha de odiar. Que eu culpava e desculpava.

(Mas esse tempo acabou. As tuas mãos já não me prendem. Os teus olhos não me condoem. Amo-te, mas não tens poder sobre mim.)

A morte do meu pai foi a minha liberdade, e a psicanálise iniciou essa libertação. Lembro-me do primeiro dia. Lembro-me de dizer que os meus pais não eram culpados da minha dor. Lembro-me de dizer que não queria ter filhos nem homem. Quatro anos depois acusava a psicanalista por não levar a sério o meu projecto de maternidade.

Fui ficando grávida de um filho ao longo das sessões. Era um filho enorme que tinha de ser parido com urgência. Um filho contraditório, que era todas as coisas: eu.

Grávida de mim. Grávida dos meus medos e culpas que se consolidavam finalmente num feto alien que eu tinha de expulsar. Grávida do meu verdadeiro eu que queria renascer sem traumas. Que precisava desse parto para renascer.

As mulheres não justificam a sua necessidade de ser mães. Nem sabem porquê. Porque sim. Porque é normal. Porque todas as mulheres são. Porque é o que se espera delas.

Eu tenho sentido essa necessidade. Tenho sido interrogada sobre esse desejo desesperado. Eu própria me interrogo. Não quis crianças até aos 30 e tal. Detestava a ideia de família, de crianças. Odiava famílias. O que aconteceu nos últimos 3 anos e tal? Precisamente essa gravidez de uma nova vida. A minha.

A maternidade é o parto dos meus traumas. Eles são a casca de um ovo que quando se abrir, encerra lá dentro, de novo, uma menina loura e doce de enormes olhos. A menina mais linda do universo, a menina imaculada. A menina não destruída, que não se destruiu, como auto-flagelação, ao ritmo da sua dor muda.

março 11, 2007

Um poste só para entupir o ciberespaço

Filed under: desilusão,perda — by Primípara @ 11:43 pm

You can’t always get what you want
But if you try sometimes, you just might find
You just might find
You get what you need

Stones, The Rolling

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