PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Julho 1, 2007

Cura

Arquivado em: esperança, os filhos são o fim do nosso ego, projecto de vida, psicanálise — by Primípara @ 1:25 pm

Percebo agora que o desejo de ter um filho, que se tornou muito material em mim após início da psicanálise, e faz parte do meu do meu processo de cura. Eu larguei tudo por causa do desejo deste filho. O mestrado, a própria psicanálise. O enorme desejo de ser mãe, e de ter um filho tem sido um enorme desejo de cura. Eu quero reconstruir-me a partir das cinzas, quero ser outro ser humano. E, para isso preciso de outro ser humano que cresça comigo. A sua presença far-me-á sair da caverna, e eu nunca o abandonarei na caverna.

Novembro 27, 2006

Instinto único, doloroso

Arquivado em: depressão, medos, os filhos são o fim do nosso ego — by Primípara @ 1:58 pm
Nas últimas duas noites, penso que ao acordar, tive vislumbres do que sentirei quando tiver um filho. Não sei se foi um sonho. Foi muito rápido, e talvez tenha feito conscientemente por esquecer. Mas hoje voltei a senti-lo. Todos os sentimentos amalgamados num momento de consciência e memória muito reduzido.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.

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