Percebo agora que o desejo de ter um filho, que se tornou muito material em mim após início da psicanálise, e faz parte do meu do meu processo de cura. Eu larguei tudo por causa do desejo deste filho. O mestrado, a própria psicanálise. O enorme desejo de ser mãe, e de ter um filho tem sido um enorme desejo de cura. Eu quero reconstruir-me a partir das cinzas, quero ser outro ser humano. E, para isso preciso de outro ser humano que cresça comigo. A sua presença far-me-á sair da caverna, e eu nunca o abandonarei na caverna.
Julho 1, 2007
Novembro 27, 2006
Instinto único, doloroso
Nas últimas duas noites, penso que ao acordar, tive vislumbres do que sentirei quando tiver um filho. Não sei se foi um sonho. Foi muito rápido, e talvez tenha feito conscientemente por esquecer. Mas hoje voltei a senti-lo. Todos os sentimentos amalgamados num momento de consciência e memória muito reduzido.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.