Quando chego a datas muito próximas da menstruação apetece-me congelar o tempo, adiando a triste notícia que esse sangue agora anuncia. Se tenho um atraso, como já tive, um dia, não mais, ganho um entusiasmo tão grande que desejo parar-me nesse dia, crendo que vai finalmente ser verdade. Nessas horas, nesse dia em que ainda não veio o sangue, faço todos os planos, corro com a criança pela relva, jogamos, caminho na rua com ela abraçada ao meu peito, carrego-a como uma mamana carrega os filhos, sempre encostada ao meu corpo, como se nunca tivesse saído dele, e encontro nesse pensamento uma paz tão grande como nenhuma outra que alguma vez tenha sentido.
Janeiro 26, 2007
Outubro 31, 2006
Ainda não vieste para mim
Moreno-Cinza de Veludo, único homem informado sobre este diário aberto, para além de Leãozinho di Caprio, escreve-me perguntando-me se já me veio o período.
Comovo-me um bocado. Moreno-Veludo escuta a minha barriga, espera-a.
Não estou só. Há uma família para lá do sangue.
Sorrio, alargando os lábios serenamente; brilhando.
Construir uma família a talho de enxada faz-se com uma vontade muito grande, assim. Com inquietude, nervos, persistência. Obsessão? Sim, a quantidade suficiente de obsessão para que um desejo seja muito sério sem se tornar uma doença.
Apetece-me ter um filho de cada homem, e criar, finalmente, a minha família. Que seja enorme. E retirar-me para um sítio onde possa ter os pequenos em paz junto de mim, viver com pouco, e escrever.
Repito-me, sei. Repetir-me, fortalece-me; acende-me luzes esporádicas pelo caminho. Para que vá vendo à frente.
Quem escreve, vive com pouco, é uma condição sine qua non, e nem me parece desejável que seja radicalmente diferente.
As crianças não precisam de muito para crescer bem. É possível arranjar muita roupa em segunda mão: a dos filhos de pessoas amigas. E parafernália.
Comida, consegue-se sem gastar balúrdios, sejam os meninos saudáveis. O peixinho congelado do Jumbo é muito fresquinho. O carapau da praça, também. Batatas, arroz, massa, couves, leitinho, pão e manteiga. Uma guloseima de vez em quando. Ao sábado, como faz a Cat da Suécia com as meninas.
Médicos, isso sim, sai do bolso. É preciso haver dinheiro para médicos, para pequenos acidentes. Isso tem de estar sempre garantido com algum pecúlio. Lembrar-me disto muito, muito bem.
Educação também se arranja. Faculdade é que será pior, mas daqui a 17 anos, se Deus quiser, hei-de estar melhor de finanças. Hei-de ter o suficiente para propinas. Tenho de ter. Nem que me esfole a trabalhar. Não me importo nada de trabalhar no duro, desde que não me sinta humilhada no que faço, pelo que faço. Desde que não me desmereçam, me apouquem, como tem acontecido. Sou capaz de fazer muito, de fazer bem, seja o que for em que me meta. Sei arregaçar mangas, e sei-o bem demais. À conta disso, deixei de lado, durante anos, a única coisa que importava: quem era eu, o que queria eu, como poderia eu ser… algo chegado à felicidade!
A minha mãe, algumas pessoas amigas, não confidentes, sabem que vai acontecer algo, brevemente.
Se acontecer.
Pressentem. Esperam no silêncio. Conhecem-me… E se me conhecem, sabem que não desisto, que não estou satisfeita, que não páro. Que ter-me calado significou apenas ter-me calado para não ter que os ouvir sobre… os perigos. Sabem-no muito bem.
Mantém-se calados, expectantes da minha palavra, que pode rebentar a qualquer momento.
A minha mãe, nessas ocasiões, arranja umas expressões que me fazem rir, “Então como é que tu fizeste isso?”
Desta vez até lhe posso contar: “sem sexo, mãe, sem essa porcaria do sexo que domina o mundo inteiro; os homens e as mulheres”.
“Sem sexo, como?”
Ou não, talvez seja melhor sorrir apenas, encolher os ombros, e fazer de conta que eu e Leãozinho di Caprio tivémos um momento de fraqueza carnal. Compreende-se melhor. A minha mãe poderia não sobreviver ao conhecimento do meu processo de auto-inseminação. Modernices excessivas.
O período ainda não apareceu. Mas faltam dois dias. E virá, tal como respondi a Moreno-Cinza de Veludo.
Não será ainda desta, Moreno, mas virá o tempo!