PRODUÇÃO INDEPENDENTE

março 11, 2007

Paranóia

Filed under: filhos deficientes,mãe aos 40,medos — by Primípara @ 11:49 pm

Algumas pessoas têm muito medo que eu tenha um filho deficiente, pela insistência. Eu também. Sobretudo porque elas me fazem ter muito medo desse risco real. Ninguém quer ter um filho deficiente, mas os filhos deficientes nascem, apesar de tudo. Tudo é uma questão de sorte e estatística. Eu, para dizer a verdade… Este é um assunto do qual nunca se quer falar até que não possa evitar falar-se. É um assunto difícil.

novembro 27, 2006

Instinto único, doloroso

Filed under: depressão,medos,os filhos são o fim do nosso ego — by Primípara @ 1:58 pm
Nas últimas duas noites, penso que ao acordar, tive vislumbres do que sentirei quando tiver um filho. Não sei se foi um sonho. Foi muito rápido, e talvez tenha feito conscientemente por esquecer. Mas hoje voltei a senti-lo. Todos os sentimentos amalgamados num momento de consciência e memória muito reduzido.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.

novembro 3, 2006

Quanto valem cinco dias e meio (de sangue, de carne)?

Engravidar à primeira tentativa seria perfeito se não me tivesse acontecido este azar com o olho, e não me pesasse na consciência uma operação com anestesia geral.

Se porventura engravidei de Leãozinho, em Outubro, aconteceu na madrugada de sábado, 21, ou na de domingo, 22, ou na tarde desse dia – fui operada na tarde de quinta, 26. Portanto, a existirem células em multiplicação, o processo teria, no máximo, à data da operação, cinco dias e meio. Cinco dias e meio não é nada. Mas cinco dias e meio, quando se trata de uma vida humana que se deseja perfeita, se falha algo, pode ser tudo, e esse é o meu medo.
Não sei o que se faz numa operação. O sangue continua na circular; a respiração continua a fazer-se; o coração não pára de bater. Penso. Portanto, exceptuando os sedativos fortes administrados, ou outros medicamentos não testados em grávidas, nada pode considerar-se perigoso para um minúsculo embrião. Penso. Mas eu sei lá… as falhas cromossomáticas têm algo a ver com isso? … tenho uma paranóia… se estou grávida e a merda da operação me deita isto abaixo… Se tenho eu de deitar isto abaixo porque pode haver risco!
Tenho de falar com a obstectra a seguir ao fim-de-semana. Estou muito preocupada, muito nervosa. Queria estar grávida, mas não sei se nestas condições posso dar-me a esse luxo.
O período não vem, e nem sinais, e eu escrevo isto para me sossegar.

Formação embrionária humana com 3 dias

Blastocisto com 5 dias (cerca de cem células; para mais, não para menos)

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