PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Fevereiro 19, 2007

Criar um filho como se fosse negro

Arquivado em: esperança, expectativas sobre a maternidade, projecto de vida, reconstruir-me — by Primípara @ 3:01 pm

Mas agora vou ter um filho, e não sei em que medida isto não me vai tornar menos selvagem. Não queria.

Tenho ideias muitas românticas sobre levar a criança comigo para todo o lado, num marsupial, aquele acessório que se coloca aos ombros, como uma mochila, mas ao contrário, e que permite levar a criança abraçadinha a nós até ao fim do mundo. Sinceramente, gostava de fazer como fazem as negras, trazê-lo atado a mim com panos, de lado, às costas. As negras trabalham com eles às costas, e eu acho isto fabuloso, sempre achei. Para mim, a melhor forma de se criar uma criança é como faziam os negros. Deixá-los à solta, não os proteger demais, e, simultamente, sem mariquices, facultar-lhes o consolo do calor do corpo materno, da mama materna, ali sempre encostados enquanto são bebés.

Eu tive muito sorte por nascer em África. De uma forma ou de outra pude beneficiar dessa atmosfera de imensa liberdade que nos chegava dos negros à nossa volta. Poder andar descalça, mesmo que a minha mãe me ralhasse, mas poder fazê-lo, apesar de tudo, subir às árvores e pendurar-me nelas, embora a minha mãe detestasse que fosse uma maria-rapaz, o que me interessava?! Comer terra. Brincar na rua. Houve algo de ouro, nisto. Algo insubstituível.

Não há nenhum outro lugar no nundo onde desejasse viver, a não ser em Moçambique, onde a vida era tão morna. E, se calhar, é o lugar do mundo onde poderei viver com o meu filho ou filha. Porque Portugal é uma prisão para mim.

Eu penso sempre em África como a salvação!

Novembro 21, 2006

Eu não andei no mundo que os corrompeu

 

Não ando feliz.

Um ataque de realismo significa perceber, de repente, que o mais provável é nunca engravidar, nunca ter filhos, porque não tenho com quem.
Conheço muita gente, no entanto, as minhas hipóteses são limitadíssimas. Os homens não estão dispostos a ter filhos comigo, uns; a doar-me esperma, outros. Não há, tirando Leãozinho, com os condicionalismos deste tipo de inseminação, um desgraçado dum homem disposto a ter um filho comigo, foda-se! É como dizia o senhor Ilídio: farrapo humano repelente e desprezível! Foi uma praga; foi para sempre.
Onde quer que esteja deve estar a rir-se de mim gozosamente.
Entretanto, terei perdido muito tempo, energia, dinheiro, e tantas outras hipóteses de melhorar a minha vida – sei que já perdi.

A semana passada arranjei uma espécie de namorado. Conhecemo-nos de antes.
Sabe que quero engravidar. As pessoas sabem. Todos os homens que conheço. Os que desejo e os que não desejo. Não é um segredo.
Com esse “namorado”, que eu não desejava, e não interessam os meus motivos, porque não eram nenhuns (nasci com espírito missionário!), a situação evoluiu para circunstâncias de cama, e, embora tivéssemos falado bastante na questão das doenças sexualmente transmíssiveis, e ambos nos soubéssemos saudáveis, ele achou que deveria usar preservativo, porque “nunca poderia saber se eu o estaria a enganar”. Podia estar no período fértil e não lhe dizer.
Tínhamos falado sobre esse assunto; ele tinha-me dito que não queria ter um filho, mas não se importava que eu o tivesse com outro homem; achei estranho, mas tudo bem, somos todos modernos, e respondi-lhe que podia estar descansado, que não aconteceria, que naquela altura não havia problema, mas dois dias a seguir já haveria, potencialmente. Expliquei-lhe tudo. A verdade é que também não queria ter um filho dele. Tenho muito pena, mas sei exactamente de quem é desejaria ter um filho. De x, sim; e y, também. E de k, não estivesse ele no estado em que está. E de um petisco longínguo a que chamarei Pássaro a Voar Alto.
Mas o “namorado” achou que eu podia enganá-lo. Se o quisesse enganar nunca lhe teria confessado que pretendia engravidar! Mas nunca quis, é a verdade. Não quero enganar; ninguém. Mata Hari e Angel dizem-me frequentemente que já devia ter enganado um gajo qualquer há muito. Não é assim! Um homem qualquer não me serve. Que seja, um homem bonito, bom, saudável, que tenha bons genes. Do qual eu goste.
Não quis. Contra os meus próprios interesses tenho mantido a ideia romântica do pai. Eu gostei tanto do meu pai! O meu pai pegava-me ao colo e atirava-me ao ar, e segurava-me, na queda, enquanto eu ria, e eu era feliz nesses momentos. Ambos éramos. Gostaria que o pai do meu filho também o atirasse ao ar, e o segurasse na queda, e rissem ambos. Queria tudo para o meu filho, se o tivesse. Queria o melhor para o meu filho.
Jamais, para o meu filho, um pai que desconfiasse da minha palavra.
Lamento não ser igual ao resto do mundo que os corrompeu a todos. Eu não andei por lá.

Outubro 31, 2006

Ainda não vieste para mim

Arquivado em: espera, expectativas sobre a maternidade, menstruação — by Primípara @ 1:23 am

Moreno-Cinza de Veludo, único homem informado sobre este diário aberto, para além de Leãozinho di Caprio, escreve-me perguntando-me se já me veio o período.
Comovo-me um bocado. Moreno-Veludo escuta a minha barriga, espera-a.
Não estou só. Há uma família para lá do sangue.
Sorrio, alargando os lábios serenamente; brilhando.

Construir uma família a talho de enxada faz-se com uma vontade muito grande, assim. Com inquietude, nervos, persistência. Obsessão? Sim, a quantidade suficiente de obsessão para que um desejo seja muito sério sem se tornar uma doença.
Apetece-me ter um filho de cada homem, e criar, finalmente, a minha família. Que seja enorme. E retirar-me para um sítio onde possa ter os pequenos em paz junto de mim, viver com pouco, e escrever.
Repito-me, sei. Repetir-me, fortalece-me; acende-me luzes esporádicas pelo caminho. Para que vá vendo à frente.
Quem escreve, vive com pouco, é uma condição sine qua non, e nem me parece desejável que seja radicalmente diferente.
As crianças não precisam de muito para crescer bem. É possível arranjar muita roupa em segunda mão: a dos filhos de pessoas amigas. E parafernália.
Comida, consegue-se sem gastar balúrdios, sejam os meninos saudáveis. O peixinho congelado do Jumbo é muito fresquinho. O carapau da praça, também. Batatas, arroz, massa, couves, leitinho, pão e manteiga. Uma guloseima de vez em quando. Ao sábado, como faz a Cat da Suécia com as meninas.
Médicos, isso sim, sai do bolso. É preciso haver dinheiro para médicos, para pequenos acidentes. Isso tem de estar sempre garantido com algum pecúlio. Lembrar-me disto muito, muito bem.
Educação também se arranja. Faculdade é que será pior, mas daqui a 17 anos, se Deus quiser, hei-de estar melhor de finanças. Hei-de ter o suficiente para propinas. Tenho de ter. Nem que me esfole a trabalhar. Não me importo nada de trabalhar no duro, desde que não me sinta humilhada no que faço, pelo que faço. Desde que não me desmereçam, me apouquem, como tem acontecido. Sou capaz de fazer muito, de fazer bem, seja o que for em que me meta. Sei arregaçar mangas, e sei-o bem demais. À conta disso, deixei de lado, durante anos, a única coisa que importava: quem era eu, o que queria eu, como poderia eu ser… algo chegado à felicidade!

A minha mãe, algumas pessoas amigas, não confidentes, sabem que vai acontecer algo, brevemente.
Se acontecer.
Pressentem. Esperam no silêncio. Conhecem-me… E se me conhecem, sabem que não desisto, que não estou satisfeita, que não páro. Que ter-me calado significou apenas ter-me calado para não ter que os ouvir sobre… os perigos. Sabem-no muito bem.
Mantém-se calados, expectantes da minha palavra, que pode rebentar a qualquer momento.
A minha mãe, nessas ocasiões, arranja umas expressões que me fazem rir, “Então como é que tu fizeste isso?”
Desta vez até lhe posso contar: “sem sexo, mãe, sem essa porcaria do sexo que domina o mundo inteiro; os homens e as mulheres”.
“Sem sexo, como?”
Ou não, talvez seja melhor sorrir apenas, encolher os ombros, e fazer de conta que eu e Leãozinho di Caprio tivémos um momento de fraqueza carnal. Compreende-se melhor. A minha mãe poderia não sobreviver ao conhecimento do meu processo de auto-inseminação. Modernices excessivas.

O período ainda não apareceu. Mas faltam dois dias. E virá, tal como respondi a Moreno-Cinza de Veludo.
Não será ainda desta, Moreno, mas virá o tempo!

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