Tarde demais. Acho. Esquecer o projecto filho na barriga. Já não é possível. Riscos enormes. Sozinha. Sem forças para todo esse sofrimento sem ajudas. Devo poupar-me ao que nunca me poupou. Devo pensar fora do coração, uma vez na vida. Tratar-me melhor. Ser paciente. Aceitar o que existiu. Não querer voltar atrás para reconstruir o que não pode ser reconstruído. Construir o que é possível agora, com a matéria actual. A minha barriga já não pode ter filhos. Ponto final. A produção independente não é impossível, noutros moldes, mas terá de vir da barriga de outros que não se protegeram. Que nunca se protegeram como eu.
maio 27, 2007
fevereiro 19, 2007
A cegueira da normalidade
Foi esta a revista que comprei
A normalidade é uma doença da visão. A normalidade coloca palas nos olhos, visão em canudo, cegueira selectiva. Eu tenho um horror visceral à normalidade, sempre tive, e por isso nunca fui… isso, e não fiz o que os outros fizeram, e, tenho muita pena, sim, é verdade, transformei-me numa freak e numa solitária. Não sei viver como os outros. Não consigo. Não quero. Sentir-me-ia sufocar.
Hoje fui fazer análises. Análises de grávida. A senhora olhou para o papel e disse-me, “Não são para si, pois não?! Quando é que a pessoa quer vir fazê-las?” E eu respondi que sim, que eram para mim, inicialmente sem perceber por que não seriam.
Porque eram de grávida, e porque eu não tenho idade de grávida, foi isso, pensei a seguir. E era!
Experiência seguinte: tinham de me tirar sangue duas vezes, com intervalo de uma hora, porque uma das análises servia para despistar a diabetes. Resolvi ir comprar um jornal. Na papelaria, lembrei-me que queria também uma revista dos bebés e das mamãs, e, como não via nenhuma, pedi à senhora. Ela disse-me que não, que tinha uma coisa do género, mas que era para as gestantes. Pedi-lhe essa. “É isso mesmo!”, exclamei. E ela, um bocado perplexa, “A das gestantes?!”.
Deve ter pensado que era para uma prima minha, uma irmã ou coisa assim.
fevereiro 8, 2007
Prioridades
Hoje enervei-me na escola. Com os miúdos. Com os colegas que são, cada vez mais, inimigos mútuos. É um ambiente de cortar a faca.
Trabalhei das oito e meia da manhã às 19h00, aturei toda a espécie de gente. Há pouco estava a corrigir testes, dormia em pé, decidi ir deitar-me. Assim que cheguei à cama comecei a lembrar-me de filhas-da-putice diversas e já não consegui conciliar o sono. Preciso de dormir. Estou cansada. Preciso de descansar.
Hoje sinto uma ligeira dor no baixo ventre. Não quero ter problemas com a gravidez. Se o ambiente de trabalho continua, dos dois lados, insuportável, venho para casa de atestado. Não me pagam para tanta chatice. Eu estou velha para merdas.
outubro 24, 2006
Sei de onde vim e para onde vou
Lido mal com a doença, a fraqueza. Apercebo-me de que não posso dominar o meu corpo, de que ele já não é o que foi.
O médico disse que problemas oculares como o que tenho surgem sobretudo depois dos quarenta, em altas míopias como a minha. Tenho de enfrentar isto: tenho quarenta anos, tenho quarenta anos. Sim, há dias em que posso iludir o tempo, porque me sinto bem, ou me ponho bem. Há dias em que me dizem, e eu sei, pareces trinta. Pareço, mas não os tenho. Por dentro, por fora, algumas peças do meu corpo pediam já uma substituiçãozinha.
Como é possível chegar a esta idade e desatar-se a querer um filho quando é tão difícil tê-lo?! Tão perigoso para mim. Para ele. Uma percentagem de risco tão elevada, o corpo a ceder em coisas pequenas, e quero. Mais que tudo. Quero.
Isto, este filho, agarra-me à vida. Vou viver para ele o que não pude viver para mim. E sim, vou dar-lhe tudo o que não tive, desde que isso não o prejudique.
Vou tê-lo junto a mim, quase fundido em mim, e ler-lhe livros, ir ao cinema, aos teatrinhos. Havemos de ir passear pelo campo para ver as plantas, as árvores e os pássaros, e fazer piqueniques com guloseimas. E ele rir-se-á, e isso será toda a minha felicidade.
Ensiná-lo-ei a respeitar os outros seres, todos os outros seres, e escreverei livros para ele, e para o meu pai, e para a minha mãe: de onde eu vim, para onde vou.


