PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Julho 1, 2007

O que me foi roubado

Arquivado em: amor, esperança, projecto de vida, psicanálise, reconstruir-me — by Primípara @ 10:47 pm

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Compreendi esta bola de amargura, insatisfação, incompletude. Vejo-a com uma clareza tão grande. Tantas coisas para dizer.

Tinha razão quando dizia à psicanalista que não queria ter este filho por ele, filho, mas por mim. Quando me zangava por ser questionada. Quando lhe dizia que as outras mulheres não têm os filhos pelos filhos, mas por si. É por nós, não por nenhum amor à manutenção da espécie. Claro que depois são eles só, e não nós, mas a origem de uma gravidez desejada está fundo dentro de nós. No que fomos.

Um filho é um renascimento. É isso que é a maternidade. A possibilidade de nascer outra vez. E é isso que é sagrado. Esse renascimento.

É isso que procuro. Quero renascer exactamente no ponto onde me perdi. Quero a menina negra que me foi roubada. Todos os meninos e meninas negras que me foram tirados real ou simbolicamente. Quero o paraíso. Quero o paraíso que me foi roubado.

Cura

Arquivado em: esperança, os filhos são o fim do nosso ego, projecto de vida, psicanálise — by Primípara @ 1:25 pm

Percebo agora que o desejo de ter um filho, que se tornou muito material em mim após início da psicanálise, e faz parte do meu do meu processo de cura. Eu larguei tudo por causa do desejo deste filho. O mestrado, a própria psicanálise. O enorme desejo de ser mãe, e de ter um filho tem sido um enorme desejo de cura. Eu quero reconstruir-me a partir das cinzas, quero ser outro ser humano. E, para isso preciso de outro ser humano que cresça comigo. A sua presença far-me-á sair da caverna, e eu nunca o abandonarei na caverna.

Junho 9, 2007

Recomeço. Que chova, agora, na Primavera

A entrevista para adopção está marcada.

Os documentos estão a conseguir-se. Já tenho a certidão de registo criminal. Amanhã penso que poderei conseguir a de nascimento. Já tenho consulta marcada para a médica de família atestar que sou são física e psicologicamente (cof!, cof!). E tenho de procurar o irs do ano passado. E fotos em que esteja linda e saudável para entregar.

Não sei em que é que tenho de mentir! Está bem, não falo de blogues nem de comprimidos alternativos, para dormir, nem de tentativas de engravidar com gays. De resto… Que mais não posso dizer? Que tenho uns repentes? Que sou dada a depressões e tristezas? Está bem, não digo, mas a humanidade estaria bem arranjada se aquela que tem repentes e depressões e tristezas, tal como o contrário, não pudesse ser mãe.

Sinto-me muito animada com este reinício.

Junho 3, 2007

Quero a minha filha

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Está decidido.

A semana passada escrevi para a Segurança Social de Setúbal, perguntando onde devia dirigir-me, com quem falar, para iniciar o processo de adopção.

Afinal, o Simplex não está a funcionar, porque ainda não me responderam.

Estou deserta por iniciar as férias e ter tempo para gastar horas à espera de ser atendida, num organismo qualquer, por alguém que me entreviste, me pergunte quem sou, ao que vou, e dar início a tudo isto.

E ter a minha filha. Porque eu quero a minha filha. Ou os meus filhos.

Fevereiro 19, 2007

Criar um filho como se fosse negro

Arquivado em: esperança, expectativas sobre a maternidade, projecto de vida, reconstruir-me — by Primípara @ 3:01 pm

Mas agora vou ter um filho, e não sei em que medida isto não me vai tornar menos selvagem. Não queria.

Tenho ideias muitas românticas sobre levar a criança comigo para todo o lado, num marsupial, aquele acessório que se coloca aos ombros, como uma mochila, mas ao contrário, e que permite levar a criança abraçadinha a nós até ao fim do mundo. Sinceramente, gostava de fazer como fazem as negras, trazê-lo atado a mim com panos, de lado, às costas. As negras trabalham com eles às costas, e eu acho isto fabuloso, sempre achei. Para mim, a melhor forma de se criar uma criança é como faziam os negros. Deixá-los à solta, não os proteger demais, e, simultamente, sem mariquices, facultar-lhes o consolo do calor do corpo materno, da mama materna, ali sempre encostados enquanto são bebés.

Eu tive muito sorte por nascer em África. De uma forma ou de outra pude beneficiar dessa atmosfera de imensa liberdade que nos chegava dos negros à nossa volta. Poder andar descalça, mesmo que a minha mãe me ralhasse, mas poder fazê-lo, apesar de tudo, subir às árvores e pendurar-me nelas, embora a minha mãe detestasse que fosse uma maria-rapaz, o que me interessava?! Comer terra. Brincar na rua. Houve algo de ouro, nisto. Algo insubstituível.

Não há nenhum outro lugar no nundo onde desejasse viver, a não ser em Moçambique, onde a vida era tão morna. E, se calhar, é o lugar do mundo onde poderei viver com o meu filho ou filha. Porque Portugal é uma prisão para mim.

Eu penso sempre em África como a salvação!

Janeiro 26, 2007

Paz

Arquivado em: espera, esperança, menstruação — by Primípara @ 8:39 am

Quando chego a datas muito próximas da menstruação apetece-me congelar o tempo, adiando a triste notícia que esse sangue agora anuncia. Se tenho um atraso, como já tive, um dia, não mais, ganho um entusiasmo tão grande que desejo parar-me nesse dia, crendo que vai finalmente ser verdade. Nessas horas, nesse dia em que ainda não veio o sangue, faço todos os planos, corro com a criança pela relva, jogamos, caminho na rua com ela abraçada ao meu peito, carrego-a como uma mamana carrega os filhos, sempre encostada ao meu corpo, como se nunca tivesse saído dele, e encontro nesse pensamento uma paz tão grande como nenhuma outra que alguma vez tenha sentido.

Novembro 30, 2006

Esperança

Arquivado em: esperança — by Primípara @ 1:17 am

“Annie Leibovitz foi mãe pela primeira vez aos 51 anos. Sarah nasceu pouco depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, fruto de uma inseminação artificial de dador anónimo. As gémeas Susan e Samuelle, que foram concebidas numa “barriga de aluguer”, nasceram três anos e meio mais tarde, em Maio de 2005 (…)”

Li na Pública da semana passada.


Seattle, Novembro, 2003

Novembro 29, 2006

Claro que é mentira

Mas é verdade que ando com o baixo ventre um bocado congestionado. Assim como se estivesse para me vir o período. Mas claro que é impressão. É mais uma das minhas gravidezes imaginárias.
Mas é verdade que também senti isto da outra vez que engravidei, enquanto o embrião esteve vivo. Sinto como se alguma coisa repuxasse lá dentro. Mas pode ser o período, que tem que vir dentro de 3 dias. As mamas?! Estão boas, obrigada. Granditas. Doem-me um nadinha quase junto à axila. Mas deve ser do período que está por aí. Estou a escrever isto e até parece que tenho alguma esperança. E tenho. Mas não quero ter. Sei que não posso ter. Estou a escrever isto a ver se não rebento.
E não posso tomar um comprimido para dormir, não posso beber um copo de vinho. Vício nenhuns. Bolas! Como é que eu sossego este corpo e esta cabeça?!

Novembro 27, 2006

Mudar

Arquivado em: esperança — by Primípara @ 12:25 am

Seria mudar a minha vida. Inteira. Quero mudar a vida. Inteira.
Criticar-me-ão. Dirão: oh, mudaste para pior!
Mudarei, apenas. Apenas?!

Novembro 26, 2006

Terceira vida

Arquivado em: dar vida, esperança — by Primípara @ 11:23 pm
Sejam quais forem os custos em dor, quero de volta o que me roubaram, e o que a seguir eu me roubei, só para poder continuar, só para conseguir chegar aqui.
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