PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Fevereiro 13, 2007

Não me iludir, esperar

Arquivado em: espera — by Primípara @ 7:59 pm

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Controlo-me para não pensar demasiado nisto da gravidez. Para não me iludir. Claro que me apetece pensar em nomes para rapaz e rapariga, mas eu sei lá se vou mesmo ter um filho. Sei lá se isto chega ao fim. Até fazer a amniocintese não posso permitir-me entusiasmos. E, até lá, ainda falta.

Janeiro 26, 2007

Paz

Arquivado em: espera, esperança, menstruação — by Primípara @ 8:39 am

Quando chego a datas muito próximas da menstruação apetece-me congelar o tempo, adiando a triste notícia que esse sangue agora anuncia. Se tenho um atraso, como já tive, um dia, não mais, ganho um entusiasmo tão grande que desejo parar-me nesse dia, crendo que vai finalmente ser verdade. Nessas horas, nesse dia em que ainda não veio o sangue, faço todos os planos, corro com a criança pela relva, jogamos, caminho na rua com ela abraçada ao meu peito, carrego-a como uma mamana carrega os filhos, sempre encostada ao meu corpo, como se nunca tivesse saído dele, e encontro nesse pensamento uma paz tão grande como nenhuma outra que alguma vez tenha sentido.

Novembro 29, 2006

Claro que é mentira

Mas é verdade que ando com o baixo ventre um bocado congestionado. Assim como se estivesse para me vir o período. Mas claro que é impressão. É mais uma das minhas gravidezes imaginárias.
Mas é verdade que também senti isto da outra vez que engravidei, enquanto o embrião esteve vivo. Sinto como se alguma coisa repuxasse lá dentro. Mas pode ser o período, que tem que vir dentro de 3 dias. As mamas?! Estão boas, obrigada. Granditas. Doem-me um nadinha quase junto à axila. Mas deve ser do período que está por aí. Estou a escrever isto e até parece que tenho alguma esperança. E tenho. Mas não quero ter. Sei que não posso ter. Estou a escrever isto a ver se não rebento.
E não posso tomar um comprimido para dormir, não posso beber um copo de vinho. Vício nenhuns. Bolas! Como é que eu sossego este corpo e esta cabeça?!

Novembro 21, 2006

Eu não andei no mundo que os corrompeu

 

Não ando feliz.

Um ataque de realismo significa perceber, de repente, que o mais provável é nunca engravidar, nunca ter filhos, porque não tenho com quem.
Conheço muita gente, no entanto, as minhas hipóteses são limitadíssimas. Os homens não estão dispostos a ter filhos comigo, uns; a doar-me esperma, outros. Não há, tirando Leãozinho, com os condicionalismos deste tipo de inseminação, um desgraçado dum homem disposto a ter um filho comigo, foda-se! É como dizia o senhor Ilídio: farrapo humano repelente e desprezível! Foi uma praga; foi para sempre.
Onde quer que esteja deve estar a rir-se de mim gozosamente.
Entretanto, terei perdido muito tempo, energia, dinheiro, e tantas outras hipóteses de melhorar a minha vida – sei que já perdi.

A semana passada arranjei uma espécie de namorado. Conhecemo-nos de antes.
Sabe que quero engravidar. As pessoas sabem. Todos os homens que conheço. Os que desejo e os que não desejo. Não é um segredo.
Com esse “namorado”, que eu não desejava, e não interessam os meus motivos, porque não eram nenhuns (nasci com espírito missionário!), a situação evoluiu para circunstâncias de cama, e, embora tivéssemos falado bastante na questão das doenças sexualmente transmíssiveis, e ambos nos soubéssemos saudáveis, ele achou que deveria usar preservativo, porque “nunca poderia saber se eu o estaria a enganar”. Podia estar no período fértil e não lhe dizer.
Tínhamos falado sobre esse assunto; ele tinha-me dito que não queria ter um filho, mas não se importava que eu o tivesse com outro homem; achei estranho, mas tudo bem, somos todos modernos, e respondi-lhe que podia estar descansado, que não aconteceria, que naquela altura não havia problema, mas dois dias a seguir já haveria, potencialmente. Expliquei-lhe tudo. A verdade é que também não queria ter um filho dele. Tenho muito pena, mas sei exactamente de quem é desejaria ter um filho. De x, sim; e y, também. E de k, não estivesse ele no estado em que está. E de um petisco longínguo a que chamarei Pássaro a Voar Alto.
Mas o “namorado” achou que eu podia enganá-lo. Se o quisesse enganar nunca lhe teria confessado que pretendia engravidar! Mas nunca quis, é a verdade. Não quero enganar; ninguém. Mata Hari e Angel dizem-me frequentemente que já devia ter enganado um gajo qualquer há muito. Não é assim! Um homem qualquer não me serve. Que seja, um homem bonito, bom, saudável, que tenha bons genes. Do qual eu goste.
Não quis. Contra os meus próprios interesses tenho mantido a ideia romântica do pai. Eu gostei tanto do meu pai! O meu pai pegava-me ao colo e atirava-me ao ar, e segurava-me, na queda, enquanto eu ria, e eu era feliz nesses momentos. Ambos éramos. Gostaria que o pai do meu filho também o atirasse ao ar, e o segurasse na queda, e rissem ambos. Queria tudo para o meu filho, se o tivesse. Queria o melhor para o meu filho.
Jamais, para o meu filho, um pai que desconfiasse da minha palavra.
Lamento não ser igual ao resto do mundo que os corrompeu a todos. Eu não andei por lá.

Novembro 7, 2006

Um mês para deitar fora

Este mês não posso viajar, porque o médico não me deixa, e como nas datas x,y,z, Leaõzinho estará em Alicante, não vai haver nada de nada. Não vai haver tentativa alguma de emprenhamento. Um mês para deitar fora, é assim que pensa a pré-grávida desiludida com as circunstâncias.
Se, hoje, um blogger, e futuro papá dentro de um mês, me disse que a namorada demorou seis meses a engravidar, e a amiga da namorada, nove, e só depois de comprar o Fertifácil, que custa 70 euros… e se essas pessoas vivem juntas, companheira e companheiro, e podem fazer a qualquer hora, imaginem-me à distância a que estou de Leãozinho, à necessidade de planear viagens que encaixem dois dias do fim-de-semana num período ovulatório com 5 ou 6, imaginem-me a conseguir. Quando?

Novembro 3, 2006

Quanto valem cinco dias e meio (de sangue, de carne)?

Arquivado em: doença da mãe, espera, medos, paranóias de primípara idosa, período, saúde do bebé — by Primípara @ 10:47 pm

Engravidar à primeira tentativa seria perfeito se não me tivesse acontecido este azar com o olho, e não me pesasse na consciência uma operação com anestesia geral.

Se porventura engravidei de Leãozinho, em Outubro, aconteceu na madrugada de sábado, 21, ou na de domingo, 22, ou na tarde desse dia – fui operada na tarde de quinta, 26. Portanto, a existirem células em multiplicação, o processo teria, no máximo, à data da operação, cinco dias e meio. Cinco dias e meio não é nada. Mas cinco dias e meio, quando se trata de uma vida humana que se deseja perfeita, se falha algo, pode ser tudo, e esse é o meu medo.
Não sei o que se faz numa operação. O sangue continua na circular; a respiração continua a fazer-se; o coração não pára de bater. Penso. Portanto, exceptuando os sedativos fortes administrados, ou outros medicamentos não testados em grávidas, nada pode considerar-se perigoso para um minúsculo embrião. Penso. Mas eu sei lá… as falhas cromossomáticas têm algo a ver com isso? … tenho uma paranóia… se estou grávida e a merda da operação me deita isto abaixo… Se tenho eu de deitar isto abaixo porque pode haver risco!
Tenho de falar com a obstectra a seguir ao fim-de-semana. Estou muito preocupada, muito nervosa. Queria estar grávida, mas não sei se nestas condições posso dar-me a esse luxo.
O período não vem, e nem sinais, e eu escrevo isto para me sossegar.

Formação embrionária humana com 3 dias

Blastocisto com 5 dias (cerca de cem células; para mais, não para menos)

Para nada

Arquivado em: espera, período — by Primípara @ 1:23 am
Estava a comer coisas que não posso comer: castanhas, batata-doce, diospiro, e pensei, “faz de conta que não é para mim, mas para o bebé”. Qual bebé? Não há bebé nenhum. O período há-de vir amanhã, que parece-me sentir já umas movimentações quaisquer nas entranhas, tipo dores (meu Deus, aquilo que me dou ao luxo de escrever aqui!), e, portanto, “para nada”, como se diz em Espanha. O bebé continua adiado.

Outubro 31, 2006

Ainda não vieste para mim

Arquivado em: espera, expectativas sobre a maternidade, menstruação — by Primípara @ 1:23 am

Moreno-Cinza de Veludo, único homem informado sobre este diário aberto, para além de Leãozinho di Caprio, escreve-me perguntando-me se já me veio o período.
Comovo-me um bocado. Moreno-Veludo escuta a minha barriga, espera-a.
Não estou só. Há uma família para lá do sangue.
Sorrio, alargando os lábios serenamente; brilhando.

Construir uma família a talho de enxada faz-se com uma vontade muito grande, assim. Com inquietude, nervos, persistência. Obsessão? Sim, a quantidade suficiente de obsessão para que um desejo seja muito sério sem se tornar uma doença.
Apetece-me ter um filho de cada homem, e criar, finalmente, a minha família. Que seja enorme. E retirar-me para um sítio onde possa ter os pequenos em paz junto de mim, viver com pouco, e escrever.
Repito-me, sei. Repetir-me, fortalece-me; acende-me luzes esporádicas pelo caminho. Para que vá vendo à frente.
Quem escreve, vive com pouco, é uma condição sine qua non, e nem me parece desejável que seja radicalmente diferente.
As crianças não precisam de muito para crescer bem. É possível arranjar muita roupa em segunda mão: a dos filhos de pessoas amigas. E parafernália.
Comida, consegue-se sem gastar balúrdios, sejam os meninos saudáveis. O peixinho congelado do Jumbo é muito fresquinho. O carapau da praça, também. Batatas, arroz, massa, couves, leitinho, pão e manteiga. Uma guloseima de vez em quando. Ao sábado, como faz a Cat da Suécia com as meninas.
Médicos, isso sim, sai do bolso. É preciso haver dinheiro para médicos, para pequenos acidentes. Isso tem de estar sempre garantido com algum pecúlio. Lembrar-me disto muito, muito bem.
Educação também se arranja. Faculdade é que será pior, mas daqui a 17 anos, se Deus quiser, hei-de estar melhor de finanças. Hei-de ter o suficiente para propinas. Tenho de ter. Nem que me esfole a trabalhar. Não me importo nada de trabalhar no duro, desde que não me sinta humilhada no que faço, pelo que faço. Desde que não me desmereçam, me apouquem, como tem acontecido. Sou capaz de fazer muito, de fazer bem, seja o que for em que me meta. Sei arregaçar mangas, e sei-o bem demais. À conta disso, deixei de lado, durante anos, a única coisa que importava: quem era eu, o que queria eu, como poderia eu ser… algo chegado à felicidade!

A minha mãe, algumas pessoas amigas, não confidentes, sabem que vai acontecer algo, brevemente.
Se acontecer.
Pressentem. Esperam no silêncio. Conhecem-me… E se me conhecem, sabem que não desisto, que não estou satisfeita, que não páro. Que ter-me calado significou apenas ter-me calado para não ter que os ouvir sobre… os perigos. Sabem-no muito bem.
Mantém-se calados, expectantes da minha palavra, que pode rebentar a qualquer momento.
A minha mãe, nessas ocasiões, arranja umas expressões que me fazem rir, “Então como é que tu fizeste isso?”
Desta vez até lhe posso contar: “sem sexo, mãe, sem essa porcaria do sexo que domina o mundo inteiro; os homens e as mulheres”.
“Sem sexo, como?”
Ou não, talvez seja melhor sorrir apenas, encolher os ombros, e fazer de conta que eu e Leãozinho di Caprio tivémos um momento de fraqueza carnal. Compreende-se melhor. A minha mãe poderia não sobreviver ao conhecimento do meu processo de auto-inseminação. Modernices excessivas.

O período ainda não apareceu. Mas faltam dois dias. E virá, tal como respondi a Moreno-Cinza de Veludo.
Não será ainda desta, Moreno, mas virá o tempo!

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