Este blogue só para mim foi a melhor coisinha que já inventei.
Vou deitar-me e descansar esta vista, esta cabeça. Estou doente. Agora já fisicamente. Não vejo um boi à frente.
O meu filho, se vier a nascer, vai ter uma mãe que, em alguns dias, tem mesmo 40 anos. Sente 50. Sessenta. Sente-se muito velha. Outros não.
Mas o meu filho vai ter sorte, se vier. Vai ter uma mãe para o amar, beijar, acarinhar, para de lhar uma palmadinha fascista quando se portar mal – porque a palmada, mesmo que tenha as suas virtudes pedagógicas, não humilhando, não ferindo, é sempre um exercício de poder fascista – quando temos de lhes dizer, com a mão sobre a nádega, “tem de ser assim, porque isto é o que está certo, e tu estás a fazer chantagem emocional à qual não vou ceder!”
Mas Mata-Hari diz sempre que vou ser com um filho como com as cadelas: dou-lhes mimos, deixo-as fazer tudo, faço-lhes a vontade. Se calhar vou. O amor é muito cego. Só sei que o amor é muito cego.
outubro 25, 2006
O amor é muito cego
outubro 24, 2006
Sei de onde vim e para onde vou
“Estou velha”, disse hoje à minha mãe, e chorei.
Lido mal com a doença, a fraqueza. Apercebo-me de que não posso dominar o meu corpo, de que ele já não é o que foi.
O médico disse que problemas oculares como o que tenho surgem sobretudo depois dos quarenta, em altas míopias como a minha. Tenho de enfrentar isto: tenho quarenta anos, tenho quarenta anos. Sim, há dias em que posso iludir o tempo, porque me sinto bem, ou me ponho bem. Há dias em que me dizem, e eu sei, pareces trinta. Pareço, mas não os tenho. Por dentro, por fora, algumas peças do meu corpo pediam já uma substituiçãozinha.
Como é possível chegar a esta idade e desatar-se a querer um filho quando é tão difícil tê-lo?! Tão perigoso para mim. Para ele. Uma percentagem de risco tão elevada, o corpo a ceder em coisas pequenas, e quero. Mais que tudo. Quero.
Isto, este filho, agarra-me à vida. Vou viver para ele o que não pude viver para mim. E sim, vou dar-lhe tudo o que não tive, desde que isso não o prejudique.
Vou tê-lo junto a mim, quase fundido em mim, e ler-lhe livros, ir ao cinema, aos teatrinhos. Havemos de ir passear pelo campo para ver as plantas, as árvores e os pássaros, e fazer piqueniques com guloseimas. E ele rir-se-á, e isso será toda a minha felicidade.
Ensiná-lo-ei a respeitar os outros seres, todos os outros seres, e escreverei livros para ele, e para o meu pai, e para a minha mãe: de onde eu vim, para onde vou.
Lido mal com a doença, a fraqueza. Apercebo-me de que não posso dominar o meu corpo, de que ele já não é o que foi.
O médico disse que problemas oculares como o que tenho surgem sobretudo depois dos quarenta, em altas míopias como a minha. Tenho de enfrentar isto: tenho quarenta anos, tenho quarenta anos. Sim, há dias em que posso iludir o tempo, porque me sinto bem, ou me ponho bem. Há dias em que me dizem, e eu sei, pareces trinta. Pareço, mas não os tenho. Por dentro, por fora, algumas peças do meu corpo pediam já uma substituiçãozinha.
Como é possível chegar a esta idade e desatar-se a querer um filho quando é tão difícil tê-lo?! Tão perigoso para mim. Para ele. Uma percentagem de risco tão elevada, o corpo a ceder em coisas pequenas, e quero. Mais que tudo. Quero.
Isto, este filho, agarra-me à vida. Vou viver para ele o que não pude viver para mim. E sim, vou dar-lhe tudo o que não tive, desde que isso não o prejudique.
Vou tê-lo junto a mim, quase fundido em mim, e ler-lhe livros, ir ao cinema, aos teatrinhos. Havemos de ir passear pelo campo para ver as plantas, as árvores e os pássaros, e fazer piqueniques com guloseimas. E ele rir-se-á, e isso será toda a minha felicidade.
Ensiná-lo-ei a respeitar os outros seres, todos os outros seres, e escreverei livros para ele, e para o meu pai, e para a minha mãe: de onde eu vim, para onde vou.
