Queria ser só um passarinho debicando os caminhos num dia de sol.
Abril 6, 2007
Março 27, 2007
Tenho a casa toda limpinha
As orquídeas desfazem-se em flores, e eu sinto-me morrer tão devagarinho.
Março 10, 2007
Deixar passar
Quando estou muito triste vejo documentários no Odisseia e no História, para me anestesiar.
Fevereiro 25, 2007
Quero ir-me embora
Quando ando cheia de raiva e procuro uma saída, e não a encontro, é a raiva que me faz andar, que caminha pelas minhas pernas.
Dezembro 25, 2006
Estou viva e não me dói nada
Acordo todos os dias por volta das nove da manhã, independentemente da hora a que me deite, e fico na cama com os piores pensamentos do mundo, os mais derrotistas, os únicos que consigo ter, enquanto aproveito o calor e torpor do sono, a única coisa que me conforta no meio da depressão.
Não consigo salientar uma área boa na minha vida. Estou viva e, por enquanto, tenho saúde e não me dói nada. Acho que é isto. Quanto ao resto, bebé, profissão, amor, amizade, finanças… vejo tudo numa rampa descendente.
Estou prestes a desistir do bebé, porque não suporto a ansiedade em que tenho vivido inutilmente.
Deixei de saber operar na minha profissão. É como se as máquinas tivessem mudado e eu não tivesse feito uma acção de formação para o efeito.
Finanças, foi-se o pouco que havia com a operação. Via mal antes. Vejo pior, agora, estou apenas operada.
Não consigo salientar uma área boa na minha vida. Estou viva e, por enquanto, tenho saúde e não me dói nada. Acho que é isto. Quanto ao resto, bebé, profissão, amor, amizade, finanças… vejo tudo numa rampa descendente.
Estou prestes a desistir do bebé, porque não suporto a ansiedade em que tenho vivido inutilmente.
Deixei de saber operar na minha profissão. É como se as máquinas tivessem mudado e eu não tivesse feito uma acção de formação para o efeito.
Finanças, foi-se o pouco que havia com a operação. Via mal antes. Vejo pior, agora, estou apenas operada.
Novembro 27, 2006
Instinto único, doloroso
Nas últimas duas noites, penso que ao acordar, tive vislumbres do que sentirei quando tiver um filho. Não sei se foi um sonho. Foi muito rápido, e talvez tenha feito conscientemente por esquecer. Mas hoje voltei a senti-lo. Todos os sentimentos amalgamados num momento de consciência e memória muito reduzido.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.