Eram duas e tal da manhã de sexta passada, em Madrid, quando Leãozinho di Caprio gritou
Voilá ao ejacular na casa-de-banho. Acrescentou
eureka e rejubilou.
Sorri, estendida sobre a cama do seu sotão sem janelas, recheado de objectos e papelada até ao limite da liberdade de movimentos. Aparelhos de computador, leitores de video e dvd, parafernália diversa, que não sei para que quer, nem me interessa.
Parece a casa da minha avó, quando trazia objectos do lixo. A casa de Leãozinho, pai do meu filho. Do filho que ainda não há. Leãozinho, o excessivamente abrigado.
Masturbar-se para um frasco de plástico deve ser tarefa impossível para românticos. Felizmente, Leãozinho di Caprio é racional e pragmático. E é tudo o resto que me levou a pensá-lo pai ideal do meu filho. Inteligente. Sensível. Bonito. Anti-consumo. Caótico, mas disciplinado. Fraco, forte. Triste e estóico. Doce e amargo. Egoista da sua liberdade e do seu bem estar, o que me permitirá ser mãe até fartar, até gritar, até ao enjoo; tutelar, mantendo, protegendo a carne e o espírito do meu filho, muito junto a mim, mas sabendo que há um pai, que está ali, que posso telefonar-lhe dizer-lhe, “Leão, o teu filho chora tanto e não sei que fazer”; “Leão, o teu filho tem saudades tuas”.
Leãozinho, trouxe-me o sémen num vaso de recolha de urina. Eu nunca tinha visto coisa assim. O sémen fora de mim sem ser entre pernas, quando escorre de dentro de nós, um fio transparente, e limpamo-lo sem ver bem. Pensamos que um homem, quando ejacula, é um rio. Mas não, é um niquito: cinco mililitros de uma subtância turva, leitosa, bastante líquida, com alguns grumos. Despejei o conteúdo do frasco numa cânula para introdução de creme vaginal, penetrei-me com ela, e foi assim que o sémen de Leãozinho entrou em mim pela primeira vez.
Entrou e saiu, porque a minha experiência era mínima, atrapalhei-me, e metade do líquido ficou à entrada da vagina, do lado de fora.
Molhei as mãos com o esperma tentanto empurrá-lo para dentro da vulva, com quem enche chouriços, mas o material não se adequava. Molhei as mãos do sémen de Leão, coisa em que nunca tinha pensado antes. Quando tive tempo de sentir nojo, o que em mim seria de esperar, perante matéria orgânica de alguém com quem não mantenho uma relação de intimidade passsional, não senti nojo. Era como se o esperma de Leão fosse meu, parte de mim, fosse já o meu filho.
Só quando senti necessidade de limpar as mãos viscosas, e lhe pedi que me trouxesse uma toalha molhada me lembrei que aquilo era o sémen dele. Nas minha mãos todas.
A minha posição era ridícula. Ri-me alto. Rimo-nos sempre, aliás. É curioso fazer aquilo assim. Estamos de facto a fazer algo. Sentimo-lo. É um trabalho de pares. E é uma coisa séria. Mas bater uma punheta a dois metros de outro e dizer “eu não faço barulho, as minha punhetas são muito silenciosas” ou auto-penetrarmo-nos com um seringa larga, e dizer, “merda, mais valia eu masturbar-me também”, dá vontade de rir.
De todas as vezes, lembrei-me de colocar uma almofada por debaixo das ancas, e levantar as pernas durante alguns minutos; foi o conselho que me deu Angel, há meses atrás, “levantas as pernas, rapariga”, como se fazia antigamente. Levantei. Se me dissessem que teria de fazer um defumado e rezar o terço, para a coisa resultar, também o faria. Venha o bebé. O meu filho. A minha filha. Venha essa filha para a vida inteira, para a dor inteira. Para toda a alegria, toda a tristeza. Esse amor completo, infinito, eterno. O único para sempre de uma vida humana. Venha.
Venha essa filha, escrevi. Deixo ficar, “filha”. Não tenho a certeza, mas deixo. Preparo-me para um filho, imagino um rapaz. Imagino-me mãe de um menino, em todas as fantasias. Sem querer, sai-me, “essa filha”.
O consciente nem sempre está alerta.
A segunda tentativa teve lugar 24 horas depois, no Sábado.
Leão chegou cansado, vindo de um curso. Acabara de correr Madrid procurando uma farmácia aberta onde fosse possível comprar seringas para “trabalharmos” melhor. Eu dissera-lhe, “traz compridas, o mais compridas que puderes, desde que não demasiado largas”. Trouxe-me duas seringas com 10 centímetros de comprimento e 2 de diâmetro.
Um pénis erecto ultrapassa bem os 10 centímetros, enfim, pelo menos os que conheci, mas imaginando que se trata de um homem menos dotado, e nem por isso menos incapaz de fecundar mulheres e ter os seus fihos…. serve.
Uma única objecção: um pénis verdadeiro, mesmo pequeno, pode projectar o sémen mais longe, na direcção do colo do útero, e facilitar todo o processo. Não pude fazê-lo com a seringa. Para além de que entrou algum ar para o êmbolo, enquanto puxava o esperma. Esse ar foi também injectado, pelo que tive de criar uma espécie de corredor vaginal para que saísse, produzindo um ruído igual ao de qualquer gás que se escapa.
Enquanto injectava esperma com uma mão, com a outra procurava alargar a vulva para que o ar pudesse sair.
Introduzir na vagina, a seco, um objecto de 2 centímetros de diámetro, sem ponta curva, redonda, como um pénis, só não foi difícil porque sou eu, e porque eu forço o que não vai a bem, e vai a mal, porque avanço, porque quero. Um cano de plástico de dois centímetros, sem lubricação, metê-lo dentro de uma vagina em poucos segundos, porque não há muito tempo, porque a outra pessoa está ali, porque é embaraçoso, apesar de tudo, não é pêra doce. Não é.
Eu e Leãozinho não temos essa intimidade de nos vermos nus. Dispo-me perto dele, e não me envergonha que me veja seminua, mas de pernas abertas, toda escarranchada, haja algum pudor, santo Deus!
Na segunda vez foi difícil a Leão conseguir obter uma ejaculação. Estava cansado; estava mal. Fez um esforço enorme – porque é ele, e se não vai a bem, vai a mal. E a inseminação tambem não me correu muito bem: aquela questão do ar no êmbolo… muito sémen ficou fora.
Boa, boa foi a terceira tentativa. Domingo, ontem, 16 horas.
Leão masturba-se na cama, rapidamente, eu fico na casa-de-banho. Chama-me. Passa-me o frasco de plástico, de dentro do qual puxo o esperma com a seringa. Trocamos de lugar. Deito-me. Injecto o esperma em mim, forçando a entrada; levanto as pernas e encosto-as à parede, bem esticadas. Entra tudo. Trabalho perfeito.
Dou-lhe a seringa dentro de um saco de plástico para que a deite no lixo; digo-lhe “basura”; rimo-nos.
Corremos para o aeroporto enquanto falamos das nossas expectativas de parentalidade, que queremos deixar escritas, como lembrete para o futuro, pelo valor simbolico, pela “obriga”, como ele diz, não sei em se em castelhano se em galego.
Esta será a criança mais ibérica da Ibéria, mesmo que desta feita não haja criança alguma.
Leão diz que não se importe que escreva sobre ele na blogosfera, ou onde quiser.
Certo, Leãozinho. Adoro-te.