
Compreendi esta bola de amargura, insatisfação, incompletude. Vejo-a com uma clareza tão grande. Tantas coisas para dizer.
Tinha razão quando dizia à psicanalista que não queria ter este filho por ele, filho, mas por mim. Quando me zangava por ser questionada. Quando lhe dizia que as outras mulheres não têm os filhos pelos filhos, mas por si. É por nós, não por nenhum amor à manutenção da espécie. Claro que depois são eles só, e não nós, mas a origem de uma gravidez desejada está fundo dentro de nós. No que fomos.
Um filho é um renascimento. É isso que é a maternidade. A possibilidade de nascer outra vez. E é isso que é sagrado. Esse renascimento.
É isso que procuro. Quero renascer exactamente no ponto onde me perdi. Quero a menina negra que me foi roubada. Todos os meninos e meninas negras que me foram tirados real ou simbolicamente. Quero o paraíso. Quero o paraíso que me foi roubado.
Tenho muitas saudades tuas. Todos os dias passo à tua porta. Pode ser que veja o teu carro, e é só o teu carro. Pode ser que a tua janela tenha as cortinas corridas, e será só uma janela. Pode ser que te veja sair ou entrar, e seria apenas ver-te. Tenho saudades do que não tivemos e do que não vivemos. E raiva. E dor. E um vazio enorme.
Tenho muitos sonhos.
Os meus sonhos não incluem vivendas, carros, piscinas, ouro, diamantes, dinheiro ou fama. Essas coisas estão reservadas para quem precisa delas. Eu não.
Os meu sonhos são modestos. Levanto-me cedo. Há sol. Bebo café com leite e como pão fresco com compota de morango. Dou de mamar a um filho e acordo outro. Lavo roupa. Passo roupa. Faço comida. Lavo louça. Leio histórias. Conto histórias. Durmo a sesta. Brinco. Ensino. Crio os meus filhos.
Nos meus sonhos sou uma mulher com muito pouco dinheiro, mas com um grande sorriso. Tenho os meus filhos, e essa a única fortuna que espero herdar.
Precisei de atingir os 40, essa fasquia corporal para a maternidade, para perceber que tudo o que quero é ser mãe. Ter filhos. Uns atrás dos outros. Cuidar deles. Ser mãe. Ser mãe multiplicada.E escrever.
Eis todo o trabalho para que tenho vocação.
Quero muito, mas o que quero é, afinal, muito pouco.
“Estou velha”, disse hoje à minha mãe, e chorei.
Lido mal com a doença, a fraqueza. Apercebo-me de que não posso dominar o meu corpo, de que ele já não é o que foi.O médico disse que problemas oculares como o que tenho surgem sobretudo depois dos quarenta, em altas míopias como a minha. Tenho de enfrentar isto: tenho quarenta anos, tenho quarenta anos. Sim, há dias em que posso iludir o tempo, porque me sinto bem, ou me ponho bem. Há dias em que me dizem, e eu sei, pareces trinta. Pareço, mas não os tenho. Por dentro, por fora, algumas peças do meu corpo pediam já uma substituiçãozinha.Como é possível chegar a esta idade e desatar-se a querer um filho quando é tão difícil tê-lo?! Tão perigoso para mim. Para ele. Uma percentagem de risco tão elevada, o corpo a ceder em coisas pequenas, e quero. Mais que tudo. Quero.
Isto, este filho, agarra-me à vida. Vou viver para ele o que não pude viver para mim. E sim, vou dar-lhe tudo o que não tive, desde que isso não o prejudique.
Vou tê-lo junto a mim, quase fundido em mim, e ler-lhe livros, ir ao cinema, aos teatrinhos. Havemos de ir passear pelo campo para ver as plantas, as árvores e os pássaros, e fazer piqueniques com guloseimas. E ele rir-se-á, e isso será toda a minha felicidade.Ensiná-lo-ei a respeitar os outros seres, todos os outros seres, e escreverei livros para ele, e para o meu pai, e para a minha mãe: de onde eu vim, para onde vou.
Mary Cassatt