PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Julho 1, 2007

O que me foi roubado

Arquivado em: amor, esperança, projecto de vida, psicanálise, reconstruir-me — by Primípara @ 10:47 pm

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Compreendi esta bola de amargura, insatisfação, incompletude. Vejo-a com uma clareza tão grande. Tantas coisas para dizer.

Tinha razão quando dizia à psicanalista que não queria ter este filho por ele, filho, mas por mim. Quando me zangava por ser questionada. Quando lhe dizia que as outras mulheres não têm os filhos pelos filhos, mas por si. É por nós, não por nenhum amor à manutenção da espécie. Claro que depois são eles só, e não nós, mas a origem de uma gravidez desejada está fundo dentro de nós. No que fomos.

Um filho é um renascimento. É isso que é a maternidade. A possibilidade de nascer outra vez. E é isso que é sagrado. Esse renascimento.

É isso que procuro. Quero renascer exactamente no ponto onde me perdi. Quero a menina negra que me foi roubada. Todos os meninos e meninas negras que me foram tirados real ou simbolicamente. Quero o paraíso. Quero o paraíso que me foi roubado.

Abril 30, 2007

Coisas que nunca virás a saber

Arquivado em: amor — by Primípara @ 12:37 am

Tenho muitas saudades tuas. Todos os dias passo à tua porta. Pode ser que veja o teu carro, e é só o teu carro. Pode ser que a tua janela tenha as cortinas corridas, e será só uma janela. Pode ser que te veja sair ou entrar, e seria apenas ver-te. Tenho saudades do que não tivemos e do que não vivemos. E raiva. E dor. E um vazio enorme.

Novembro 27, 2006

Fortuna

Arquivado em: amor, dar vida, efabular a maternidade — by Primípara @ 12:07 am
Tenho muitos sonhos.
Os meus sonhos não incluem vivendas, carros, piscinas, ouro, diamantes, dinheiro ou fama. Essas coisas estão reservadas para quem precisa delas. Eu não.
Os meu sonhos são modestos. Levanto-me cedo. Há sol. Bebo café com leite e como pão fresco com compota de morango. Dou de mamar a um filho e acordo outro. Lavo roupa. Passo roupa. Faço comida. Lavo louça. Leio histórias. Conto histórias. Durmo a sesta. Brinco. Ensino. Crio os meus filhos.
Nos meus sonhos sou uma mulher com muito pouco dinheiro, mas com um grande sorriso. Tenho os meus filhos, e essa a única fortuna que espero herdar.

Novembro 3, 2006

Olhos

Arquivado em: amor, beijos, doença da mãe, olhos, saúde do bebé — by Primípara @ 1:29 am
O meu olho ainda totalmente à banda. Forço demais o esquerdo. Tenho medo que falhe, e, então, ficaria mesmo perdida. Abuso dos olhos até rebentar, literalmente. Não temos olhos para isso, na família. Temos olhos bonitos, não olhos para ver. Apenas para serem vistos.
Tenho de cuidar da saúde dos olhos do meu bebé. Dele todo. É uma prioridade, sempre.
E dar-lhe beijos da cabeça aos pés.

Outubro 27, 2006

Comecei com espinafres

Arquivado em: amor, efabular a maternidade, esperança — by Primípara @ 1:17 am

Jantei espinafres cozidos temperados só com sal e azeite, e peito de perú. Gostei.
Imaginei-me, sem querer, a comer à mesa com o meu filho, a perguntar-lhe se gostava.
Imaginei que estávamos no supermercado, e perguntei-lhe, “o que vamos jantar hoje?”.
Saltei para um fim-de-semana: era sexta-feira à tarde, tinha ido buscá-lo à escola, depois de sair, e perguntara, “querido da mamã, o que vamos comer este fim-de-semana?”
Imagino-me a fazer tantas coisas com o meu filho. Ou a minha menina. Inclusive, comer.
A saúde de um filho é um prémio para uma mãe, não precisamos de mais nada. Apenas saber que o que lhe damos lhe faz bem, que o faz crescer, o mantém saudável. Ter um filho é esse dar a vida todos os dias. Quero ser mãe porque gosto de viver; porque a vida deve ser dada para que possam usufrui-la como eu, que a amo tanto.

Outubro 25, 2006

A minha vocação

Arquivado em: amor, dar vida, esperança — by Primípara @ 10:36 pm

Precisei de atingir os 40, essa fasquia corporal para a maternidade, para perceber que tudo o que quero é ser mãe. Ter filhos. Uns atrás dos outros. Cuidar deles. Ser mãe. Ser mãe multiplicada.

E escrever.
Eis todo o trabalho para que tenho vocação.
Quero muito, mas o que quero é, afinal, muito pouco.

O amor é muito cego

Arquivado em: acordo de parentalidade, amor, cansaço, desabafo, doença, palmada, paranóias de primípara — by Primípara @ 4:07 pm

Este blogue só para mim foi a melhor coisinha que já inventei.
Vou deitar-me e descansar esta vista, esta cabeça. Estou doente. Agora já fisicamente. Não vejo um boi à frente.
O meu filho, se vier a nascer, vai ter uma mãe que, em alguns dias, tem mesmo 40 anos. Sente 50. Sessenta. Sente-se muito velha. Outros não.
Mas o meu filho vai ter sorte, se vier. Vai ter uma mãe para o amar, beijar, acarinhar, para de lhar uma palmadinha fascista quando se portar mal – porque a palmada, mesmo que tenha as suas virtudes pedagógicas, não humilhando, não ferindo, é sempre um exercício de poder fascista – quando temos de lhes dizer, com a mão sobre a nádega, “tem de ser assim, porque isto é o que está certo, e tu estás a fazer chantagem emocional à qual não vou ceder!”
Mas Mata-Hari diz sempre que vou ser com um filho como com as cadelas: dou-lhes mimos, deixo-as fazer tudo, faço-lhes a vontade. Se calhar vou. O amor é muito cego. Só sei que o amor é muito cego.

Outubro 24, 2006

Sei de onde vim e para onde vou

Arquivado em: amor, doença, esperança, estar velha — by Primípara @ 11:40 pm
“Estou velha”, disse hoje à minha mãe, e chorei.
Lido mal com a doença, a fraqueza. Apercebo-me de que não posso dominar o meu corpo, de que ele já não é o que foi.

O médico disse que problemas oculares como o que tenho surgem sobretudo depois dos quarenta, em altas míopias como a minha. Tenho de enfrentar isto: tenho quarenta anos, tenho quarenta anos. Sim, há dias em que posso iludir o tempo, porque me sinto bem, ou me ponho bem. Há dias em que me dizem, e eu sei, pareces trinta. Pareço, mas não os tenho. Por dentro, por fora, algumas peças do meu corpo pediam já uma substituiçãozinha.
Como é possível chegar a esta idade e desatar-se a querer um filho quando é tão difícil tê-lo?! Tão perigoso para mim. Para ele. Uma percentagem de risco tão elevada, o corpo a ceder em coisas pequenas, e quero. Mais que tudo. Quero.
Isto, este filho, agarra-me à vida. Vou viver para ele o que não pude viver para mim. E sim, vou dar-lhe tudo o que não tive, desde que isso não o prejudique.
Vou tê-lo junto a mim, quase fundido em mim, e ler-lhe livros, ir ao cinema, aos teatrinhos. Havemos de ir passear pelo campo para ver as plantas, as árvores e os pássaros, e fazer piqueniques com guloseimas. E ele rir-se-á, e isso será toda a minha felicidade.

Ensiná-lo-ei a respeitar os outros seres, todos os outros seres, e escreverei livros para ele, e para o meu pai, e para a minha mãe: de onde eu vim, para onde vou.

Mary Cassatt

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