Como gato escaldado, quem é abandonado cria, sem que disso tenha consciência, condições para procurar… quem a abandone, e torna-se, por tudo isso, potencialmente abandonante.
(…)
todas as pessoas que maltratam serão, apesar de maltratantes, vítimas inequívocas. Apesar de não ter registo de lesão aos raios-x, um abandono é sempre um mau trato violentíssimo que deixa sequelas; para sempre.
Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina, p. 230

Talvez, então, neste contexto a adopção surja como a coragem de pessoas se procurarem em pessoas que as reparem da dor, umas e outras competentes para se vincularem para além das cicatrizes que os episódios traumáticos neles tenham deixado. Por isso, talvez os desafios que coloca e a vinculação que desperta apelem às nossas competências inatas para nos ligarmos aos outros e gere encruzilhadas na história da vida de quem a aceite.
Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina, pp. 199/200