Não ando feliz.
Um ataque de realismo significa perceber, de repente, que o mais provável é nunca engravidar, nunca ter filhos, porque não tenho com quem.
Conheço muita gente, no entanto, as minhas hipóteses são limitadíssimas. Os homens não estão dispostos a ter filhos comigo, uns; a doar-me esperma, outros. Não há, tirando Leãozinho, com os condicionalismos deste tipo de inseminação, um desgraçado dum homem disposto a ter um filho comigo, foda-se! É como dizia o senhor Ilídio: farrapo humano repelente e desprezível! Foi uma praga; foi para sempre.
Onde quer que esteja deve estar a rir-se de mim gozosamente.
Entretanto, terei perdido muito tempo, energia, dinheiro, e tantas outras hipóteses de melhorar a minha vida – sei que já perdi.
A semana passada arranjei uma espécie de namorado. Conhecemo-nos de antes.
Sabe que quero engravidar. As pessoas sabem. Todos os homens que conheço. Os que desejo e os que não desejo. Não é um segredo.
Com esse “namorado”, que eu não desejava, e não interessam os meus motivos, porque não eram nenhuns (nasci com espírito missionário!), a situação evoluiu para circunstâncias de cama, e, embora tivéssemos falado bastante na questão das doenças sexualmente transmíssiveis, e ambos nos soubéssemos saudáveis, ele achou que deveria usar preservativo, porque “nunca poderia saber se eu o estaria a enganar”. Podia estar no período fértil e não lhe dizer.
Tínhamos falado sobre esse assunto; ele tinha-me dito que não queria ter um filho, mas não se importava que eu o tivesse com outro homem; achei estranho, mas tudo bem, somos todos modernos, e respondi-lhe que podia estar descansado, que não aconteceria, que naquela altura não havia problema, mas dois dias a seguir já haveria, potencialmente. Expliquei-lhe tudo. A verdade é que também não queria ter um filho dele. Tenho muito pena, mas sei exactamente de quem é desejaria ter um filho. De x, sim; e y, também. E de k, não estivesse ele no estado em que está. E de um petisco longínguo a que chamarei Pássaro a Voar Alto.
Mas o “namorado” achou que eu podia enganá-lo. Se o quisesse enganar nunca lhe teria confessado que pretendia engravidar! Mas nunca quis, é a verdade. Não quero enganar; ninguém. Mata Hari e Angel dizem-me frequentemente que já devia ter enganado um gajo qualquer há muito. Não é assim! Um homem qualquer não me serve. Que seja, um homem bonito, bom, saudável, que tenha bons genes. Do qual eu goste.
Não quis. Contra os meus próprios interesses tenho mantido a ideia romântica do pai. Eu gostei tanto do meu pai! O meu pai pegava-me ao colo e atirava-me ao ar, e segurava-me, na queda, enquanto eu ria, e eu era feliz nesses momentos. Ambos éramos. Gostaria que o pai do meu filho também o atirasse ao ar, e o segurasse na queda, e rissem ambos. Queria tudo para o meu filho, se o tivesse. Queria o melhor para o meu filho.
Jamais, para o meu filho, um pai que desconfiasse da minha palavra.
Lamento não ser igual ao resto do mundo que os corrompeu a todos. Eu não andei por lá.