PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Novembro 30, 2006

Esperança

Arquivado em: esperança — by Primípara @ 1:17 am

“Annie Leibovitz foi mãe pela primeira vez aos 51 anos. Sarah nasceu pouco depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, fruto de uma inseminação artificial de dador anónimo. As gémeas Susan e Samuelle, que foram concebidas numa “barriga de aluguer”, nasceram três anos e meio mais tarde, em Maio de 2005 (…)”

Li na Pública da semana passada.


Seattle, Novembro, 2003

Novembro 29, 2006

Claro que é mentira

Mas é verdade que ando com o baixo ventre um bocado congestionado. Assim como se estivesse para me vir o período. Mas claro que é impressão. É mais uma das minhas gravidezes imaginárias.
Mas é verdade que também senti isto da outra vez que engravidei, enquanto o embrião esteve vivo. Sinto como se alguma coisa repuxasse lá dentro. Mas pode ser o período, que tem que vir dentro de 3 dias. As mamas?! Estão boas, obrigada. Granditas. Doem-me um nadinha quase junto à axila. Mas deve ser do período que está por aí. Estou a escrever isto e até parece que tenho alguma esperança. E tenho. Mas não quero ter. Sei que não posso ter. Estou a escrever isto a ver se não rebento.
E não posso tomar um comprimido para dormir, não posso beber um copo de vinho. Vício nenhuns. Bolas! Como é que eu sossego este corpo e esta cabeça?!

Novembro 27, 2006

Instinto único, doloroso

Arquivado em: depressão, medos, os filhos são o fim do nosso ego — by Primípara @ 1:58 pm
Nas últimas duas noites, penso que ao acordar, tive vislumbres do que sentirei quando tiver um filho. Não sei se foi um sonho. Foi muito rápido, e talvez tenha feito conscientemente por esquecer. Mas hoje voltei a senti-lo. Todos os sentimentos amalgamados num momento de consciência e memória muito reduzido.
Era mãe. Tinha um filho ou uma filha, não sei. Acordava de manhã completamente vazia, desesperada, sem saída e sem esperança. Era um sentimento horrível. Conheço-o porque havia nele angústia, solidão e nada. Conheço. A diferença é que havia um filho e tinha de me levantar por causa dele, embora não conseguisse. Era levantar-me para o nada em nome daquele ser que era tudo. Não tinha vontade. A minha vontade era o instinto único, doloroso, de cuidar daquela criança que precisava de mim. Era o que me fazia andar.
Talvez seja isto o que as mulheres experimentam na depressão pós-parto, quando percebem que deixaram de ter apenas a sua vida para tomar conta, que agora são duas vidas, e que a sua é a que não conta para nada. Que nunca mais contará para nada. Que elas são apenas a matriz de alguém que vale tudo, não elas. Eu serei uma dessas mães que não tem nada a não ser os filhos, se for mãe. Que terá apenas o abraço dos filhos.
Essa antecipação era claustrofóbica, depressiva. Era realista. Não me esquecerei dela. E tentarei ver futuro quando não vir nenhum, e já estiver no futuro com o meu filho que não me dá tempo para existir eu mesma, para respirar.

Mudar

Arquivado em: esperança — by Primípara @ 12:25 am

Seria mudar a minha vida. Inteira. Quero mudar a vida. Inteira.
Criticar-me-ão. Dirão: oh, mudaste para pior!
Mudarei, apenas. Apenas?!

Fortuna

Arquivado em: amor, dar vida, efabular a maternidade — by Primípara @ 12:07 am
Tenho muitos sonhos.
Os meus sonhos não incluem vivendas, carros, piscinas, ouro, diamantes, dinheiro ou fama. Essas coisas estão reservadas para quem precisa delas. Eu não.
Os meu sonhos são modestos. Levanto-me cedo. Há sol. Bebo café com leite e como pão fresco com compota de morango. Dou de mamar a um filho e acordo outro. Lavo roupa. Passo roupa. Faço comida. Lavo louça. Leio histórias. Conto histórias. Durmo a sesta. Brinco. Ensino. Crio os meus filhos.
Nos meus sonhos sou uma mulher com muito pouco dinheiro, mas com um grande sorriso. Tenho os meus filhos, e essa a única fortuna que espero herdar.

Novembro 26, 2006

Terceira vida

Arquivado em: dar vida, esperança — by Primípara @ 11:23 pm
Sejam quais forem os custos em dor, quero de volta o que me roubaram, e o que a seguir eu me roubei, só para poder continuar, só para conseguir chegar aqui.

Novembro 21, 2006

Tudo tão clínico para o meu corpo tão de carne, tão redondo

Arquivado em: auto-inseminação, métodos que falham — by Primípara @ 2:30 am
Foto de Esart

Leãozinho veio ter comigo de autocarro. Voltámos a repetir tudo. Três vezes em menos de 48 horas.
Antes de partir, Leãozinho dizia-me, “achas que devia fazer um teste ao esperma?”
Sorri. Sosseguei-o. Disse-lhe que ainda é cedo, que o nosso método artesanal não é o melhor, mas, apesar de tudo, ainda é cedo. Podemos tentar mais uns meses.
Mas eu sei que em Dezembro é mais que provável não poder ir a Madrid, por causa das reuniões de avaliação. E que, mesmo indo, não passaria de dois dias, o 15º e o 16º, sendo que estou convencida que só acontece ao 17º, 18º, se não for ao 19º. Uma mania que cá tenho!
Falei-lhe na hipótese aventada por Moreno de Veludo, e Doce: inseminação numa clínica. Leãozinho disse que sim, de imediato, mas o facto de sermos de países diferentes complica muito. Implica que eu passe uma semana por mês em Espanha, e não posso fazê-lo por causa do trabalho. E não tenho dinheiro. E, para ser sincera, torna tudo tão clínico.

Usei os apetrechos trazidos por Doce do seu espólio pessoal: seringas com cânulas de silicone. Não só as cânulas eram demasiado finas, e se entortavam no interior da vagina, como o esperma não as atravessava, pelo que tive de as tirar e usar apenas a seringa, tentando introduzi-la o mais longe possível na vagina, mas nunca mais de 8 centímetros.
Usei um outro objecto que me pareceu servir para retirar urina de sacos de algaliados, e se assemelhava bastante a uma seringa longa e fina, com um extensor que lhe permitia ter uns 16 ou 17 centímetros. Mas o extensor revelou-se inoperante, talvez por ser de material inflexível, que não se adapta à fisiologia genital feminina; entrava o extensor, mas não a parte da seringa que permitiria depositar o sémen mais longe, pelo que com esse objecto também não foi mais longe que 10, 12 centímetros, se tanto. Chateia-me falar disto, sei que é ridículo falar disto; no entanto, tenho de falar disto.
Claro que, no processo, se perde material dentro dos objectos, e muito do esperma inseminado, volta a sair, mesmo mantendo-me eu meia hora de pernas para o ar, em posição intragável. Quanto fica lá dentro? Serve para viajar até à trompa de Falópio e aí encontrar o óvulo e fecundá-lo? Gostava de saber. De compreender. Isso e muitas outra coisas.
Mais quinze dias de espera para nada. Nem vou pensar nisso. Juro. Não há nada em que pensar.

Eu não andei no mundo que os corrompeu

 

Não ando feliz.

Um ataque de realismo significa perceber, de repente, que o mais provável é nunca engravidar, nunca ter filhos, porque não tenho com quem.
Conheço muita gente, no entanto, as minhas hipóteses são limitadíssimas. Os homens não estão dispostos a ter filhos comigo, uns; a doar-me esperma, outros. Não há, tirando Leãozinho, com os condicionalismos deste tipo de inseminação, um desgraçado dum homem disposto a ter um filho comigo, foda-se! É como dizia o senhor Ilídio: farrapo humano repelente e desprezível! Foi uma praga; foi para sempre.
Onde quer que esteja deve estar a rir-se de mim gozosamente.
Entretanto, terei perdido muito tempo, energia, dinheiro, e tantas outras hipóteses de melhorar a minha vida – sei que já perdi.

A semana passada arranjei uma espécie de namorado. Conhecemo-nos de antes.
Sabe que quero engravidar. As pessoas sabem. Todos os homens que conheço. Os que desejo e os que não desejo. Não é um segredo.
Com esse “namorado”, que eu não desejava, e não interessam os meus motivos, porque não eram nenhuns (nasci com espírito missionário!), a situação evoluiu para circunstâncias de cama, e, embora tivéssemos falado bastante na questão das doenças sexualmente transmíssiveis, e ambos nos soubéssemos saudáveis, ele achou que deveria usar preservativo, porque “nunca poderia saber se eu o estaria a enganar”. Podia estar no período fértil e não lhe dizer.
Tínhamos falado sobre esse assunto; ele tinha-me dito que não queria ter um filho, mas não se importava que eu o tivesse com outro homem; achei estranho, mas tudo bem, somos todos modernos, e respondi-lhe que podia estar descansado, que não aconteceria, que naquela altura não havia problema, mas dois dias a seguir já haveria, potencialmente. Expliquei-lhe tudo. A verdade é que também não queria ter um filho dele. Tenho muito pena, mas sei exactamente de quem é desejaria ter um filho. De x, sim; e y, também. E de k, não estivesse ele no estado em que está. E de um petisco longínguo a que chamarei Pássaro a Voar Alto.
Mas o “namorado” achou que eu podia enganá-lo. Se o quisesse enganar nunca lhe teria confessado que pretendia engravidar! Mas nunca quis, é a verdade. Não quero enganar; ninguém. Mata Hari e Angel dizem-me frequentemente que já devia ter enganado um gajo qualquer há muito. Não é assim! Um homem qualquer não me serve. Que seja, um homem bonito, bom, saudável, que tenha bons genes. Do qual eu goste.
Não quis. Contra os meus próprios interesses tenho mantido a ideia romântica do pai. Eu gostei tanto do meu pai! O meu pai pegava-me ao colo e atirava-me ao ar, e segurava-me, na queda, enquanto eu ria, e eu era feliz nesses momentos. Ambos éramos. Gostaria que o pai do meu filho também o atirasse ao ar, e o segurasse na queda, e rissem ambos. Queria tudo para o meu filho, se o tivesse. Queria o melhor para o meu filho.
Jamais, para o meu filho, um pai que desconfiasse da minha palavra.
Lamento não ser igual ao resto do mundo que os corrompeu a todos. Eu não andei por lá.

Novembro 15, 2006

O meu corpo material

Arquivado em: cama, corpo — by Primípara @ 1:05 pm
Foto de Jacek Pomykalski

Dormi com um homem que não amo e não tenho qualquer ilusão de vir amar. Que não desejo. Fechei os olhos e imaginei que aquele beijo, aquele corpo, aquelas mãos eram de alguém com quem fantasio.e
Fi-lo por carinho pela pessoa, porque ela precisava de mulher. E porque sou uma mulher e está nas minhas mãos aceitar dispor do meu corpo material, que é só matéria. Pensei que poderia deixá-lo aprender com o meu corpo. Mas não é fácil para mim. Obriga-me a um esforço de concentração e dispersão simultaneamente. O corpo ali, a mente, não.
O corpo material está ligado ao que em mim não o é. Não são separáveis. Percebo agora como se sentem algumas mulheres. Talvez me fizesse falta saber isto assim.

Novembro 7, 2006

Um mês para deitar fora

Este mês não posso viajar, porque o médico não me deixa, e como nas datas x,y,z, Leaõzinho estará em Alicante, não vai haver nada de nada. Não vai haver tentativa alguma de emprenhamento. Um mês para deitar fora, é assim que pensa a pré-grávida desiludida com as circunstâncias.
Se, hoje, um blogger, e futuro papá dentro de um mês, me disse que a namorada demorou seis meses a engravidar, e a amiga da namorada, nove, e só depois de comprar o Fertifácil, que custa 70 euros… e se essas pessoas vivem juntas, companheira e companheiro, e podem fazer a qualquer hora, imaginem-me à distância a que estou de Leãozinho, à necessidade de planear viagens que encaixem dois dias do fim-de-semana num período ovulatório com 5 ou 6, imaginem-me a conseguir. Quando?
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