Uma mulher que deseja engravidar e espera os resultados de uma tentativa, acha que tudo é já sinal de engravidamento. Um enjoo matinal porque o trabalho nos causa asco, uma dor na anca, na barriga das pernas… É psicológico. Não ajuda. É preciso distrair, mas não se consegue. Tudo o que se faz, ou não, é a pensar no que pode beneficiar ou prejudicar aquela possível gravidez. Sentimo-nos veículos muito antes de carregarmos seja o que for. Sentimos-nos veículos quando deixamos de tomar Prozac e Sedoxil, os comprimidos para isto e aquilo, e pensamos, tenho de dormir, tenho de estar saudável, não me convém nada ter um rasgamento de retina, porque tenho medo que o que me vão fazer possa prejudicar a formação do embrião…
Tenho medo de me ver sujeita a outro aborto; tenho a paranóia das trissomias e outros problemas cromossomáticos que afligem as mães idosas e primíparas. Não suportaria ter um filho com problemas; isso levar-me-ia a provocar um aborto.
Uma mulher, quando começa a sentir-se veículo, quer ser o melhor veículo, quer acondicionar bem os seus frutos. Quer que nasçam imaculados, sem dedadas. Quer os meninos e as meninas perfeitas como deuses e deusas que são. Os veículos têm muito medo. É um medo que não nos larga a vida inteira.
Outubro 24, 2006
Veículo
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