PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Outubro 31, 2006

Ainda não vieste para mim

Arquivado em: espera, expectativas sobre a maternidade, menstruação — by Primípara @ 1:23 am

Moreno-Cinza de Veludo, único homem informado sobre este diário aberto, para além de Leãozinho di Caprio, escreve-me perguntando-me se já me veio o período.
Comovo-me um bocado. Moreno-Veludo escuta a minha barriga, espera-a.
Não estou só. Há uma família para lá do sangue.
Sorrio, alargando os lábios serenamente; brilhando.

Construir uma família a talho de enxada faz-se com uma vontade muito grande, assim. Com inquietude, nervos, persistência. Obsessão? Sim, a quantidade suficiente de obsessão para que um desejo seja muito sério sem se tornar uma doença.
Apetece-me ter um filho de cada homem, e criar, finalmente, a minha família. Que seja enorme. E retirar-me para um sítio onde possa ter os pequenos em paz junto de mim, viver com pouco, e escrever.
Repito-me, sei. Repetir-me, fortalece-me; acende-me luzes esporádicas pelo caminho. Para que vá vendo à frente.
Quem escreve, vive com pouco, é uma condição sine qua non, e nem me parece desejável que seja radicalmente diferente.
As crianças não precisam de muito para crescer bem. É possível arranjar muita roupa em segunda mão: a dos filhos de pessoas amigas. E parafernália.
Comida, consegue-se sem gastar balúrdios, sejam os meninos saudáveis. O peixinho congelado do Jumbo é muito fresquinho. O carapau da praça, também. Batatas, arroz, massa, couves, leitinho, pão e manteiga. Uma guloseima de vez em quando. Ao sábado, como faz a Cat da Suécia com as meninas.
Médicos, isso sim, sai do bolso. É preciso haver dinheiro para médicos, para pequenos acidentes. Isso tem de estar sempre garantido com algum pecúlio. Lembrar-me disto muito, muito bem.
Educação também se arranja. Faculdade é que será pior, mas daqui a 17 anos, se Deus quiser, hei-de estar melhor de finanças. Hei-de ter o suficiente para propinas. Tenho de ter. Nem que me esfole a trabalhar. Não me importo nada de trabalhar no duro, desde que não me sinta humilhada no que faço, pelo que faço. Desde que não me desmereçam, me apouquem, como tem acontecido. Sou capaz de fazer muito, de fazer bem, seja o que for em que me meta. Sei arregaçar mangas, e sei-o bem demais. À conta disso, deixei de lado, durante anos, a única coisa que importava: quem era eu, o que queria eu, como poderia eu ser… algo chegado à felicidade!

A minha mãe, algumas pessoas amigas, não confidentes, sabem que vai acontecer algo, brevemente.
Se acontecer.
Pressentem. Esperam no silêncio. Conhecem-me… E se me conhecem, sabem que não desisto, que não estou satisfeita, que não páro. Que ter-me calado significou apenas ter-me calado para não ter que os ouvir sobre… os perigos. Sabem-no muito bem.
Mantém-se calados, expectantes da minha palavra, que pode rebentar a qualquer momento.
A minha mãe, nessas ocasiões, arranja umas expressões que me fazem rir, “Então como é que tu fizeste isso?”
Desta vez até lhe posso contar: “sem sexo, mãe, sem essa porcaria do sexo que domina o mundo inteiro; os homens e as mulheres”.
“Sem sexo, como?”
Ou não, talvez seja melhor sorrir apenas, encolher os ombros, e fazer de conta que eu e Leãozinho di Caprio tivémos um momento de fraqueza carnal. Compreende-se melhor. A minha mãe poderia não sobreviver ao conhecimento do meu processo de auto-inseminação. Modernices excessivas.

O período ainda não apareceu. Mas faltam dois dias. E virá, tal como respondi a Moreno-Cinza de Veludo.
Não será ainda desta, Moreno, mas virá o tempo!

Outubro 27, 2006

Comecei com espinafres

Arquivado em: amor, efabular a maternidade, esperança — by Primípara @ 1:17 am

Jantei espinafres cozidos temperados só com sal e azeite, e peito de perú. Gostei.
Imaginei-me, sem querer, a comer à mesa com o meu filho, a perguntar-lhe se gostava.
Imaginei que estávamos no supermercado, e perguntei-lhe, “o que vamos jantar hoje?”.
Saltei para um fim-de-semana: era sexta-feira à tarde, tinha ido buscá-lo à escola, depois de sair, e perguntara, “querido da mamã, o que vamos comer este fim-de-semana?”
Imagino-me a fazer tantas coisas com o meu filho. Ou a minha menina. Inclusive, comer.
A saúde de um filho é um prémio para uma mãe, não precisamos de mais nada. Apenas saber que o que lhe damos lhe faz bem, que o faz crescer, o mantém saudável. Ter um filho é esse dar a vida todos os dias. Quero ser mãe porque gosto de viver; porque a vida deve ser dada para que possam usufrui-la como eu, que a amo tanto.

Outubro 25, 2006

A minha vocação

Arquivado em: amor, dar vida, esperança — by Primípara @ 10:36 pm

Precisei de atingir os 40, essa fasquia corporal para a maternidade, para perceber que tudo o que quero é ser mãe. Ter filhos. Uns atrás dos outros. Cuidar deles. Ser mãe. Ser mãe multiplicada.

E escrever.
Eis todo o trabalho para que tenho vocação.
Quero muito, mas o que quero é, afinal, muito pouco.

O amor é muito cego

Arquivado em: acordo de parentalidade, amor, cansaço, desabafo, doença, palmada, paranóias de primípara — by Primípara @ 4:07 pm

Este blogue só para mim foi a melhor coisinha que já inventei.
Vou deitar-me e descansar esta vista, esta cabeça. Estou doente. Agora já fisicamente. Não vejo um boi à frente.
O meu filho, se vier a nascer, vai ter uma mãe que, em alguns dias, tem mesmo 40 anos. Sente 50. Sessenta. Sente-se muito velha. Outros não.
Mas o meu filho vai ter sorte, se vier. Vai ter uma mãe para o amar, beijar, acarinhar, para de lhar uma palmadinha fascista quando se portar mal – porque a palmada, mesmo que tenha as suas virtudes pedagógicas, não humilhando, não ferindo, é sempre um exercício de poder fascista – quando temos de lhes dizer, com a mão sobre a nádega, “tem de ser assim, porque isto é o que está certo, e tu estás a fazer chantagem emocional à qual não vou ceder!”
Mas Mata-Hari diz sempre que vou ser com um filho como com as cadelas: dou-lhes mimos, deixo-as fazer tudo, faço-lhes a vontade. Se calhar vou. O amor é muito cego. Só sei que o amor é muito cego.

Compromisso de parentalidade

Arquivado em: acordo de parentalidade — by Primípara @ 3:54 pm

Eu e Leãozinho di Caprio acordámos já os seguintes pontos do que virá a ser um compromisso de parentalidade, assinado por ambos.
Não gosto de papéis assinados, digo não precisar deles para recordar os meus compromissos, mas acordei que o valor simbólico deste documento, e o de lembrete, é demasiado importante para se poder ignorar.
Registo, então, aquilo que eu e Leãozinho completaremos no futuro, acrescentaremos, conforme nos formos lembrando e necessitando.
Espero que Leãozinho venha ler este blogue, para se manter a par do que o matriarcado vai anotando (adoro este sobstantivo: matriarcado):

1. Responsabilidade relativamente a procura de informação

Ambos ficámos de procurar informação, nos respectivos países sobre:
- estatuto de dupla-nacionalidade para o bebé e como obtê-lo.
- possibilidade de justaposição de apelidos materno e paterno de Leãozinho, caso a criança seja registada em Portugal. A criança pode ser Carreira da mãe e Iglésias-Cruz do lado do pai? Ou seja, poderemos ter uma Maria Carreira Iglésias-Cruz ou Maria Iglésias-Cruz Carreira?
- direitos legais do pai em Espanha e em Portugal (licenças de paternidade, para que possa gozá-las comigo e com o bebé), ajudando no que serão tempos difíceis para mim.

2. Tutela

A criança fica à guarda da mãe, com quem habitará, e que se encarregará do seu acompanhamento, criação e educação.

3. Despesas

A cargo da mãe.
A decidir, no futuro, pelo pai, com consulta da mãe, o valor e a forma da contribuição paterna, que deverá respeitar as possibilidades do primeiro e adaptar-se a fases financeiras, piores ou melhores, de ambos.

A mãe poderá pedir apoio financeiro ao pai, sob a forma de empréstimo, caso ocorra uma situação onerosa e de emergência para a criança.

Despesas com o parto e assistência pré ou pós natal correm por conta da mãe.

4. Temporadas que o pai passará com a criança; apoio paterno não-financeiro

Um mês por ano, no mínimo, em Portugal ou em Espanha, na presença da mãe ou sem ela. Dado temporal meramente orientativo, sujeito a alterações para mais ou menos dias, por conveniência e mútuo acordo dos progenitores.
Nos primeiros anos da vida da criança, esta questão (tempo a passar com pai e mãe) está muito condicionada às necessidades da criança, pelo que será muito ponderada; o pai poderá não sentir força ou vontade para cuidar de um bebé muito dependente, e isso pode implicar menos tempo a sós com ela, mas mais tempo com ela e a mãe.
O progenitor escolherá aquilo que, constituindo para si o que considera ser o direito/obrigação mínimo de um pai, não o prenda a uma convivência forçada, não desejada com um ser extremamente frágil e dependente. Deverá, portanto, existir muita flexibilidade neste ponto. Uma frase importante pronunciada pelo futuro pai, e a lembrar, “se calhar nunca terei forças para o ter comigo ou se calhar vou adorá-lo!” (Eu seria feliz se ele o adorasse. E se a criança o adorasse também. Eu quis mesmo, quero, dar pai ao meu filho! Distante, um pouco ausente, mas pai!)

Por outro lado, a mãe prevê, neste momento da vida, que embora o fardo lhe vá ser sobremaneira pesado, não suportará separar-se dele por períodos relativamente longos. Não suportará não poder controlar tudo, tomar conta de tudo. Mesmo por sobre o cansaço tremendo dos dias.
Portanto, enquanto for pequenina, a criança estará com o pai uma quantidade de tempo que este possa suportar sem se tornar um cargo pesado demais para si. A mãe, que se encarrega do acompanhamento permanente da criança, pedirá ajuda ao pai, para alguma partilha, quando aquela constituir um fardo muito pesado para si – em caso de doença da criança ou da mãe.

5. Acompanhamento do pai durante a gravidez e o parto

O pai não acompanhará a gravidez nem o parto, presencialmente, embora vá sendo informado de tudo o que se passa. Na data do parto, o pai não estará presente no bloco de partos, mas estará disponível para acompanhamento à mãe, nessa data, se ocorrer em Espanha; realizará as visitas a que tem direito, na maternidade.
Se ocorrer em Portugal, o pai viajará para Portugal, onde prestará apoio e respectivas visitas após a chegada, passando com a mãe e a criança os dias de licença de paternidade que lhe cabem por lei.

6. Educação

A cargo da mãe, sob consulta do pai. Em caso de discordância, a prioridade de decisão é da mãe, porque acompanha mais a criança.
A mãe poderá entrar em contacto com o pai, se achar necessário, para falar sobre o filho, pedir opiniões, apoio, esclarecer dúvidas sobre aspectos da educação, etc.

7. Companheiros/namorados dos progenitores

É necessário salvaguardar que os companheiros dos progenitores, quando existam, vivam ou não na mesma casa da criança, a tratem com correcção, justiça e amizade.
É necessário que os companheiros dos progenitores estejam disponíveis para aceitar não só a presença das crianças, mas a do outro progenitor, por breves temporadas: a mãe e o filho visitam o pai na sua casa, por alguns dias ou o pai visita o filho e a mãe, por alguns dias, igualmente.
É necessário que os companheiros dos progenitores estejam disponíveis para aceitar o pai/mãe como alguém que é parte importante da vida da criança e do progenitor com quem vive.

Outubro 24, 2006

Sei de onde vim e para onde vou

Arquivado em: amor, doença, esperança, estar velha — by Primípara @ 11:40 pm
“Estou velha”, disse hoje à minha mãe, e chorei.
Lido mal com a doença, a fraqueza. Apercebo-me de que não posso dominar o meu corpo, de que ele já não é o que foi.

O médico disse que problemas oculares como o que tenho surgem sobretudo depois dos quarenta, em altas míopias como a minha. Tenho de enfrentar isto: tenho quarenta anos, tenho quarenta anos. Sim, há dias em que posso iludir o tempo, porque me sinto bem, ou me ponho bem. Há dias em que me dizem, e eu sei, pareces trinta. Pareço, mas não os tenho. Por dentro, por fora, algumas peças do meu corpo pediam já uma substituiçãozinha.
Como é possível chegar a esta idade e desatar-se a querer um filho quando é tão difícil tê-lo?! Tão perigoso para mim. Para ele. Uma percentagem de risco tão elevada, o corpo a ceder em coisas pequenas, e quero. Mais que tudo. Quero.
Isto, este filho, agarra-me à vida. Vou viver para ele o que não pude viver para mim. E sim, vou dar-lhe tudo o que não tive, desde que isso não o prejudique.
Vou tê-lo junto a mim, quase fundido em mim, e ler-lhe livros, ir ao cinema, aos teatrinhos. Havemos de ir passear pelo campo para ver as plantas, as árvores e os pássaros, e fazer piqueniques com guloseimas. E ele rir-se-á, e isso será toda a minha felicidade.

Ensiná-lo-ei a respeitar os outros seres, todos os outros seres, e escreverei livros para ele, e para o meu pai, e para a minha mãe: de onde eu vim, para onde vou.

Mary Cassatt

Veículo

Arquivado em: gravidez psicológica, paranóias de grávida primípara — by Primípara @ 2:31 pm

Uma mulher que deseja engravidar e espera os resultados de uma tentativa, acha que tudo é já sinal de engravidamento. Um enjoo matinal porque o trabalho nos causa asco, uma dor na anca, na barriga das pernas… É psicológico. Não ajuda. É preciso distrair, mas não se consegue. Tudo o que se faz, ou não, é a pensar no que pode beneficiar ou prejudicar aquela possível gravidez. Sentimo-nos veículos muito antes de carregarmos seja o que for. Sentimos-nos veículos quando deixamos de tomar Prozac e Sedoxil, os comprimidos para isto e aquilo, e pensamos, tenho de dormir, tenho de estar saudável, não me convém nada ter um rasgamento de retina, porque tenho medo que o que me vão fazer possa prejudicar a formação do embrião…
Tenho medo de me ver sujeita a outro aborto; tenho a paranóia das trissomias e outros problemas cromossomáticos que afligem as mães idosas e primíparas. Não suportaria ter um filho com problemas; isso levar-me-ia a provocar um aborto.
Uma mulher, quando começa a sentir-se veículo, quer ser o melhor veículo, quer acondicionar bem os seus frutos. Quer que nasçam imaculados, sem dedadas. Quer os meninos e as meninas perfeitas como deuses e deusas que são. Os veículos têm muito medo. É um medo que não nos larga a vida inteira.

Outubro 23, 2006

O filho mais ibérico da Ibéria (para a dor inteira)

Arquivado em: auto-inseminação, parentalidade alternativa — by Primípara @ 8:40 am
Eram duas e tal da manhã de sexta passada, em Madrid, quando Leãozinho di Caprio gritou Voilá ao ejacular na casa-de-banho. Acrescentou eureka e rejubilou.
Sorri, estendida sobre a cama do seu sotão sem janelas, recheado de objectos e papelada até ao limite da liberdade de movimentos. Aparelhos de computador, leitores de video e dvd, parafernália diversa, que não sei para que quer, nem me interessa.
Parece a casa da minha avó, quando trazia objectos do lixo. A casa de Leãozinho, pai do meu filho. Do filho que ainda não há. Leãozinho, o excessivamente abrigado.

Masturbar-se para um frasco de plástico deve ser tarefa impossível para românticos. Felizmente, Leãozinho di Caprio é racional e pragmático. E é tudo o resto que me levou a pensá-lo pai ideal do meu filho. Inteligente. Sensível. Bonito. Anti-consumo. Caótico, mas disciplinado. Fraco, forte. Triste e estóico. Doce e amargo. Egoista da sua liberdade e do seu bem estar, o que me permitirá ser mãe até fartar, até gritar, até ao enjoo; tutelar, mantendo, protegendo a carne e o espírito do meu filho, muito junto a mim, mas sabendo que há um pai, que está ali, que posso telefonar-lhe dizer-lhe, “Leão, o teu filho chora tanto e não sei que fazer”; “Leão, o teu filho tem saudades tuas”.

Leãozinho, trouxe-me o sémen num vaso de recolha de urina. Eu nunca tinha visto coisa assim. O sémen fora de mim sem ser entre pernas, quando escorre de dentro de nós, um fio transparente, e limpamo-lo sem ver bem. Pensamos que um homem, quando ejacula, é um rio. Mas não, é um niquito: cinco mililitros de uma subtância turva, leitosa, bastante líquida, com alguns grumos. Despejei o conteúdo do frasco numa cânula para introdução de creme vaginal, penetrei-me com ela, e foi assim que o sémen de Leãozinho entrou em mim pela primeira vez.
Entrou e saiu, porque a minha experiência era mínima, atrapalhei-me, e metade do líquido ficou à entrada da vagina, do lado de fora.
Molhei as mãos com o esperma tentanto empurrá-lo para dentro da vulva, com quem enche chouriços, mas o material não se adequava. Molhei as mãos do sémen de Leão, coisa em que nunca tinha pensado antes. Quando tive tempo de sentir nojo, o que em mim seria de esperar, perante matéria orgânica de alguém com quem não mantenho uma relação de intimidade passsional, não senti nojo. Era como se o esperma de Leão fosse meu, parte de mim, fosse já o meu filho.
Só quando senti necessidade de limpar as mãos viscosas, e lhe pedi que me trouxesse uma toalha molhada me lembrei que aquilo era o sémen dele. Nas minha mãos todas.

A minha posição era ridícula. Ri-me alto. Rimo-nos sempre, aliás. É curioso fazer aquilo assim. Estamos de facto a fazer algo. Sentimo-lo. É um trabalho de pares. E é uma coisa séria. Mas bater uma punheta a dois metros de outro e dizer “eu não faço barulho, as minha punhetas são muito silenciosas” ou auto-penetrarmo-nos com um seringa larga, e dizer, “merda, mais valia eu masturbar-me também”, dá vontade de rir.

De todas as vezes, lembrei-me de colocar uma almofada por debaixo das ancas, e levantar as pernas durante alguns minutos; foi o conselho que me deu Angel, há meses atrás, “levantas as pernas, rapariga”, como se fazia antigamente. Levantei. Se me dissessem que teria de fazer um defumado e rezar o terço, para a coisa resultar, também o faria. Venha o bebé. O meu filho. A minha filha. Venha essa filha para a vida inteira, para a dor inteira. Para toda a alegria, toda a tristeza. Esse amor completo, infinito, eterno. O único para sempre de uma vida humana. Venha.
Venha essa filha, escrevi. Deixo ficar, “filha”. Não tenho a certeza, mas deixo. Preparo-me para um filho, imagino um rapaz. Imagino-me mãe de um menino, em todas as fantasias. Sem querer, sai-me, “essa filha”.
O consciente nem sempre está alerta.

A segunda tentativa teve lugar 24 horas depois, no Sábado.
Leão chegou cansado, vindo de um curso. Acabara de correr Madrid procurando uma farmácia aberta onde fosse possível comprar seringas para “trabalharmos” melhor. Eu dissera-lhe, “traz compridas, o mais compridas que puderes, desde que não demasiado largas”. Trouxe-me duas seringas com 10 centímetros de comprimento e 2 de diâmetro.
Um pénis erecto ultrapassa bem os 10 centímetros, enfim, pelo menos os que conheci, mas imaginando que se trata de um homem menos dotado, e nem por isso menos incapaz de fecundar mulheres e ter os seus fihos…. serve.
Uma única objecção: um pénis verdadeiro, mesmo pequeno, pode projectar o sémen mais longe, na direcção do colo do útero, e facilitar todo o processo. Não pude fazê-lo com a seringa. Para além de que entrou algum ar para o êmbolo, enquanto puxava o esperma. Esse ar foi também injectado, pelo que tive de criar uma espécie de corredor vaginal para que saísse, produzindo um ruído igual ao de qualquer gás que se escapa.
Enquanto injectava esperma com uma mão, com a outra procurava alargar a vulva para que o ar pudesse sair.
Introduzir na vagina, a seco, um objecto de 2 centímetros de diámetro, sem ponta curva, redonda, como um pénis, só não foi difícil porque sou eu, e porque eu forço o que não vai a bem, e vai a mal, porque avanço, porque quero. Um cano de plástico de dois centímetros, sem lubricação, metê-lo dentro de uma vagina em poucos segundos, porque não há muito tempo, porque a outra pessoa está ali, porque é embaraçoso, apesar de tudo, não é pêra doce. Não é.
Eu e Leãozinho não temos essa intimidade de nos vermos nus. Dispo-me perto dele, e não me envergonha que me veja seminua, mas de pernas abertas, toda escarranchada, haja algum pudor, santo Deus!

Na segunda vez foi difícil a Leão conseguir obter uma ejaculação. Estava cansado; estava mal. Fez um esforço enorme – porque é ele, e se não vai a bem, vai a mal. E a inseminação tambem não me correu muito bem: aquela questão do ar no êmbolo… muito sémen ficou fora.

Boa, boa foi a terceira tentativa. Domingo, ontem, 16 horas.
Leão masturba-se na cama, rapidamente, eu fico na casa-de-banho. Chama-me. Passa-me o frasco de plástico, de dentro do qual puxo o esperma com a seringa. Trocamos de lugar. Deito-me. Injecto o esperma em mim, forçando a entrada; levanto as pernas e encosto-as à parede, bem esticadas. Entra tudo. Trabalho perfeito.
Dou-lhe a seringa dentro de um saco de plástico para que a deite no lixo; digo-lhe “basura”; rimo-nos.
Corremos para o aeroporto enquanto falamos das nossas expectativas de parentalidade, que queremos deixar escritas, como lembrete para o futuro, pelo valor simbolico, pela “obriga”, como ele diz, não sei em se em castelhano se em galego.
Esta será a criança mais ibérica da Ibéria, mesmo que desta feita não haja criança alguma.
Leão diz que não se importe que escreva sobre ele na blogosfera, ou onde quiser.
Certo, Leãozinho. Adoro-te.

Provido por WordPress.com