
Eles não queriam que eu brincasse com os negros. Eles não queriam que eu conversasse com o miúdo negro do outro lado do muro. Eles não queriam que eu abrisse a porta aos mufanas ranhosos e rasgados e descalços e esfomeados que iam pedir trabalho e ficavam a olhar para mim como se olha para um deus. Eles não pagavam ao mufana que lhes ia apanhar capim para os coelhos cada tarde. Eles tinham medo que eu engravidasse de um negro. Eles mandaram-me para cá para que eu não fosse de nenhum negro. Para que não pudesse ter um filho negro.
A questão relacionada com a minha segurança estava na possibilidade de, perdido o poder dos brancos, eles não poderem controlar quem me iria desvirginar e emprenhar.
Vim para Portugal para não ter um filho negro. Esse abandono de que eles não se sentiram nunca culpados - mas são, são culpados, e não apenas o curso da história, porque outros pais não abandonaram os seus filhos - foi um exercício de cego poder paternal. Privaram-me deles, condenando-me a um exílio forçado, à total desprotecção, à inconstância, ao desamor.
Eles nunca se abandonaram um ao outro.
Paguei um preço muito alto pelos seus preconceitos, pelos seu medo. Paguei-o em dor e em luta diária pela sobrevivência, pela dignidade.
A sua excessiva protecção, desprotegeu-me, expôs-me ao mundo de uma forma cruel, fez de mim um animal de medo, de solidão. Tornou-me o próprio abandono.
Eu queria dizer que há um preço a pagar por eles. Mas não, não há. Já não há. Se houve, o preço foi pago depois. Detestei-os. Fui carente, amargurada, triste e só toda a minha vida adulta, como fui na adolescência. E terem-me destruído, e visto a minha destruição, a minha dor, foi o único preço que pagaram. Afinal, eu não fui perfeita. Eu não segui o caminho das outras filhas. Afinal, eu sou uma revoltada, como diz a minha mãe. E atribuem-me totalmente essa culpa. Ao meu feitio, ao meu mau génio. Pagaram pouco. Conscientemente nunca os fiz pagar. Sempre me senti culpada do abandono. Sempre os defendi. Fui eu que fiquei cá a defendê-los.
E agora vão ter um neto negro. Deve ser chato. Terem de engolir um neto negro. Vivos ou mortos.