PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Julho 2, 2007

Alien

Arquivado em: abandono, psicanálise, reconstruir-me, traumas — by Primípara @ 12:20 am

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Hoje precisei de andar de gatas. Rebolar. Sujar-me.

Sou uma Ellen Rypley em Alien. Suja. Dura. Com feridas, abertas e mal curadas, todas juntas. Com o cabelo rapado.

Apetece-me rapar o cabelo. Desejo rapar o cabelo. Tenho tanta vontade.

(Vou fazê-lo nas férias. Nas férias para não escandalizar os outros.)

Sou Ellen Rypley as entranhas de uma nave que é todo um bicho que a destrói, e a emprenha. Mas, como Rypley, venço-o e obrigo-o a fundir-se em mim, comigo.

Ciclo de abandono

Arquivado em: abandono, adoptar, perda, psicanálise, traumas — by Primípara @ 12:11 am

Como gato escaldado, quem é abandonado cria, sem que disso tenha consciência, condições para procurar… quem a abandone, e torna-se, por tudo isso, potencialmente abandonante.

(…)

todas as pessoas que maltratam serão, apesar de maltratantes, vítimas inequívocas. Apesar de não ter registo de lesão aos raios-x, um abandono é sempre um mau trato violentíssimo que deixa sequelas; para sempre.

Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina, p. 230

Julho 1, 2007

Reparar a dor

Arquivado em: adoptar, reconstruir-me — by Primípara @ 11:59 pm

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Talvez, então, neste contexto a adopção surja como a coragem de pessoas se procurarem em pessoas que as reparem da dor, umas e outras competentes para se vincularem para além das cicatrizes que os episódios traumáticos neles tenham deixado. Por isso, talvez os desafios que coloca e a vinculação que desperta apelem às nossas competências inatas para nos ligarmos aos outros e gere encruzilhadas na história da vida de quem a aceite.

Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina, pp. 199/200

Adopção singular

Arquivado em: adopção singular — by Primípara @ 11:14 pm

De acordo com Relvas e Alarcão (2002), estas mulheres, geralmente, encontram-se na faixa etária dos trinta anos, predominantemente são de raça branca e de classe social média alta. Possuem uma posição financeira segura, apresentam bom nível de educação e ocupações profissionais reconhecidas e bem pagas.

Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina, pp. 188/189

Um desespero

Arquivado em: infertilidade — by Primípara @ 11:08 pm

Definimos, então, estelidade como a impossibilidade de fecundação, e infertilidade como a incapacidade de viabilizar um produto de concepção. Assim (…) «a infertilidade é um infortúnio ressentido e vivido dum forma mais penosa que a esterilidade pura. A mulher estéril espera; a mulher que aborta desespera».

Sá, Eduardo; Sottomayor, Maria Clara; Rosinha, Isabel; Cunha, Maria João, Abandono e Adopção, 2005, Coimbra, Edições Almedina

O que me foi roubado

Arquivado em: amor, esperança, projecto de vida, psicanálise, reconstruir-me — by Primípara @ 10:47 pm

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Compreendi esta bola de amargura, insatisfação, incompletude. Vejo-a com uma clareza tão grande. Tantas coisas para dizer.

Tinha razão quando dizia à psicanalista que não queria ter este filho por ele, filho, mas por mim. Quando me zangava por ser questionada. Quando lhe dizia que as outras mulheres não têm os filhos pelos filhos, mas por si. É por nós, não por nenhum amor à manutenção da espécie. Claro que depois são eles só, e não nós, mas a origem de uma gravidez desejada está fundo dentro de nós. No que fomos.

Um filho é um renascimento. É isso que é a maternidade. A possibilidade de nascer outra vez. E é isso que é sagrado. Esse renascimento.

É isso que procuro. Quero renascer exactamente no ponto onde me perdi. Quero a menina negra que me foi roubada. Todos os meninos e meninas negras que me foram tirados real ou simbolicamente. Quero o paraíso. Quero o paraíso que me foi roubado.

Justificar a maternidade, como ninguém

Arquivado em: perda, psicanálise, reconstruir-me — by Primípara @ 10:32 pm

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Ainda tanta raiva. Tanta dor. Ainda.

Mas agora compreendo a maternidade, o parto. Até a infertilidade.

A morte do meu pai foi o fim de uma era de poder tirânico. De medo e de culpa. Foi difícil amar tanto uma pessoa que me era tão contrária. Que eu amava tanto, mas que, ao mesmo tempo, tinha de odiar. Que eu culpava e desculpava.

(Mas esse tempo acabou. As tuas mãos já não me prendem. Os teus olhos não me condoem. Amo-te, mas não tens poder sobre mim.)

A morte do meu pai foi a minha liberdade, e a psicanálise iniciou essa libertação. Lembro-me do primeiro dia. Lembro-me de dizer que os meus pais não eram culpados da minha dor. Lembro-me de dizer que não queria ter filhos nem homem. Quatro anos depois acusava a psicanalista por não levar a sério o meu projecto de maternidade.

Fui ficando grávida de um filho ao longo das sessões. Era um filho enorme que tinha de ser parido com urgência. Um filho contraditório, que era todas as coisas: eu.

Grávida de mim. Grávida dos meus medos e culpas que se consolidavam finalmente num feto alien que eu tinha de expulsar. Grávida do meu verdadeiro eu que queria renascer sem traumas. Que precisava desse parto para renascer.

As mulheres não justificam a sua necessidade de ser mães. Nem sabem porquê. Porque sim. Porque é normal. Porque todas as mulheres são. Porque é o que se espera delas.

Eu tenho sentido essa necessidade. Tenho sido interrogada sobre esse desejo desesperado. Eu própria me interrogo. Não quis crianças até aos 30 e tal. Detestava a ideia de família, de crianças. Odiava famílias. O que aconteceu nos últimos 3 anos e tal? Precisamente essa gravidez de uma nova vida. A minha.

A maternidade é o parto dos meus traumas. Eles são a casca de um ovo que quando se abrir, encerra lá dentro, de novo, uma menina loura e doce de enormes olhos. A menina mais linda do universo, a menina imaculada. A menina não destruída, que não se destruiu, como auto-flagelação, ao ritmo da sua dor muda.

Um neto negro

Arquivado em: psicanálise, reconstruir-me — by Primípara @ 9:42 pm

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Eles não queriam que eu brincasse com os negros. Eles não queriam que eu conversasse com o miúdo negro do outro lado do muro. Eles não queriam que eu abrisse a porta aos mufanas ranhosos e rasgados e descalços e esfomeados que iam pedir trabalho e ficavam a olhar para mim como se olha para um deus. Eles não pagavam ao mufana que lhes ia apanhar capim para os coelhos cada tarde. Eles tinham medo que eu engravidasse de um negro. Eles mandaram-me para cá para que eu não fosse de nenhum negro. Para que não pudesse ter um filho negro.

A questão relacionada com a minha segurança estava na possibilidade de, perdido o poder dos brancos, eles não poderem controlar quem me iria desvirginar e emprenhar.

Vim para Portugal para não ter um filho negro. Esse abandono de que eles não se sentiram nunca culpados - mas são, são culpados, e não apenas o curso da história, porque outros pais não abandonaram os seus filhos - foi um exercício de cego poder paternal. Privaram-me deles, condenando-me a um exílio forçado, à total desprotecção, à inconstância, ao desamor.

Eles nunca se abandonaram um ao outro.
Paguei um preço muito alto pelos seus preconceitos, pelos seu medo. Paguei-o em dor e em luta diária pela sobrevivência, pela dignidade.

A sua excessiva protecção, desprotegeu-me, expôs-me ao mundo de uma forma cruel, fez de mim um animal de medo, de solidão. Tornou-me o próprio abandono.

Eu queria dizer que há um preço a pagar por eles. Mas não, não há. Já não há. Se houve, o preço foi pago depois. Detestei-os. Fui carente, amargurada, triste e só toda a minha vida adulta, como fui na adolescência. E terem-me destruído, e visto a minha destruição, a minha dor, foi o único preço que pagaram. Afinal, eu não fui perfeita. Eu não segui o caminho das outras filhas. Afinal, eu sou uma revoltada, como diz a minha mãe. E atribuem-me totalmente essa culpa. Ao meu feitio, ao meu mau génio. Pagaram pouco. Conscientemente nunca os fiz pagar. Sempre me senti culpada do abandono. Sempre os defendi. Fui eu que fiquei cá a defendê-los.

E agora vão ter um neto negro. Deve ser chato. Terem de engolir um neto negro. Vivos ou mortos.

Cura

Arquivado em: esperança, os filhos são o fim do nosso ego, projecto de vida, psicanálise — by Primípara @ 1:25 pm

Percebo agora que o desejo de ter um filho, que se tornou muito material em mim após início da psicanálise, e faz parte do meu do meu processo de cura. Eu larguei tudo por causa do desejo deste filho. O mestrado, a própria psicanálise. O enorme desejo de ser mãe, e de ter um filho tem sido um enorme desejo de cura. Eu quero reconstruir-me a partir das cinzas, quero ser outro ser humano. E, para isso preciso de outro ser humano que cresça comigo. A sua presença far-me-á sair da caverna, e eu nunca o abandonarei na caverna.

Junho 9, 2007

Recomeço. Que chova, agora, na Primavera

A entrevista para adopção está marcada.

Os documentos estão a conseguir-se. Já tenho a certidão de registo criminal. Amanhã penso que poderei conseguir a de nascimento. Já tenho consulta marcada para a médica de família atestar que sou são física e psicologicamente (cof!, cof!). E tenho de procurar o irs do ano passado. E fotos em que esteja linda e saudável para entregar.

Não sei em que é que tenho de mentir! Está bem, não falo de blogues nem de comprimidos alternativos, para dormir, nem de tentativas de engravidar com gays. De resto… Que mais não posso dizer? Que tenho uns repentes? Que sou dada a depressões e tristezas? Está bem, não digo, mas a humanidade estaria bem arranjada se aquela que tem repentes e depressões e tristezas, tal como o contrário, não pudesse ser mãe.

Sinto-me muito animada com este reinício.

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